“E Aí, Comeu”, peça do Marcelo Rubens Paiva (de “O Predador Entra na Sala”), estreou uma temporada de três semanas no Imperator, no Méier, na sexta (4/4). Com Marcos Pasquim (de “Paixão de Cristo”), Mouhamed Harfouch (de “Gorda”), Renato Rabelo (de “Abalou Bangu 2 – A Festa”) nos papeis principais e Leona Cavali (de “Homem e Cavalo”) revezando-se entre os sete personagens femininos, a comédia é a cara do autor, que agrada a muitos e incomoda a tantos outros pelo mesmo motivo: o palavreado escolhido para os diálogos.

(Foto: Fernando Filho)
(Foto: Fernando Filho)

A peça acompanha três amigos de meia-idade que se encontram frequentemente (o período de tempo não fica claro, mas parece diário) para beber e falar de mulher. Neste contexto, é compreensível a opção por um vocabulário menos delicado, o que não o torna menos chulo, às vezes sem necessidade. Não há rodeios, justamente por ser uma conversa de bar. O próprio autor diz que “quando junta homem, claro que sai baixaria”. O problema aparece quando se usa nomes feios meramente como alavanca para o riso. Como não é unânime a adesão ao estilo, a risada também não é geral.

O espetáculo, na verdade, demora a engrenar. No início, tudo é muito acelerado e o que se ouve são ameaças de risos, por falta de tempo para assimilar a piada. A culpa não é da plateia, de forma alguma, mas da direção do Fernando Gomes (de “Proibido Para Maiores”) que colocou o elenco para falar tão corrido, sem as pausas necessárias do humor. Comédia é respiração. Felizmente, depois da quarta ou quinta cena isso é corrigido.

(Foto: Studio Prime)
(Foto: Studio Prime)

Mouhamed Harfouch rouba a cena. Seu personagem – o do marido imaturo, que continua levando vida de solteiro – se revela o mais engraçado, por sua interpretação teatral. Ele se apoia na bebedeira para dar todo um suingue às falas e, até quando esquece o texto, se vale disso para entreter a plateia. Leona Cavalli também tem seus momentos. Na parte final, quando ela parece exercer a revanche feminina a tudo que foi dito na peça, se apropria do texto de uma maneira hilária. Marcos Pasquim e Renato Rabelo não comprometem o andamento.

Como a montagem é recente, a comparação com o filme do Felipe Joffily é inevitável. Algumas cenas funcionaram melhor no cinema, como a tentativa de homicídio, que na peça parece um intervalo surreal na história. O curioso é que o texto foi originalmente escrito para o teatro, tem mesmo seus momentos cinematográficos. Os cenários do José Dias marcam muito isso, de uma maneira positiva. No geral, a peça é melhor que o longa. Mouhamed é mais engraçado que Marcos Palmeira – e quanto a isso haverá pouca discordância.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.