Regina Miranda pode se considerar uma coreógrafa e diretora bem sucedida. Premiada no Brasil e no exterior, ela comemora 35 anos de sua Cia. Regina Miranda & AtoresBailarinos de forma atuante, prestes a estrear seu novo espetáculo, chamado “Vertigem das Listas”. Antes de iniciar a temporada no Teatro do Jockey, na Gávea, ela concedeu uma entrevista ao Teatro em Cena e falou sobre o olhar internacional para a dança contemporânea brasileira. “No circuito experimental, no qual transito, há uma admiração pelo que se cria contemporaneamente no Brasil, e um certo pasmo diante da imagem restrita a ‘samba, futebol e carnaval’ com a qual o Brasil ainda se apresenta internacionalmente”, conta a artista, que esgotou ingressos pra as apresentações do seu mais recente espetáculo em Nova York, em setembro. “A meu ver, o Brasil precisa avançar muito em diplomacia cultural, que é algo que não tem constado efetivamente em qualquer programa governamental”.

Regina Miranda em ensaio (Foto: Julia Maria Ferreira)
Regina Miranda em ensaio (Foto: Julia Maria Ferreira)

Ela aponta que o país ainda não tem um projeto político-cultural que vise reconhecimento de sua potência criativa nas artes. Ela cita exemplos da Bélgica, França, Índia e os próprios Estados Unidos, onde vem se apresentando nos últimos 15 anos com seus espetáculos. “A Funarte tem apenas um programa de apoio para passagens, que deve ser solicitado dois ou três meses antes de uma viagem, o que é um formato inviável. Quando se trata de programação internacional, ela precisa ser confirmada um ano antes. Isso evidencia uma política de resposta a solicitações e não uma política estratégica e propositiva”, analisa Regina, que dirige a Cidade Criativa / Transformação Cultural no Rio desde 2010. Ela iniciou o projeto com o intuito de, a longo prazo, fortalecer internamente o território e oferecer internacionalmente uma imagem mais ampla da produção artística e cultural da cidade.

Felizmente, enxerga uma transformação nas plateias cariocas. A coreógrafa não nega que há uma valorização do entretenimento em detrimento da experimentação na cidade, mas acredita que o público atualmente transita entre ambas as abordagens com mais curiosidade e prazer. “A cena carioca oferece muito mais espaço para o entretenimento, talvez porque exista uma expectativa de um tipo de sucesso ligado a número de pessoas e não à ampliação de horizontes, o que traz uma certa homogeneidade e repetição de fórmulas, quando penso que se deveria valorizar todos os tipos de arte”. Em Nova York, por exemplo, ela se apresenta em teatros off-off Broadway e em galerias de Chelsea e Tribeca. Sabe que é vista por um nicho específico, mas também entende que a cidade, assim como Londres, valoriza a diversidade artística e cultural. “[No Rio], se você olhar no jornal, pode contar nos dedos as produções cênicas mais experimentais. No entanto, são todas ótimas! Felizmente, quando se tem muitos anos de boas críticas e receptividade internacional, como acontece conosco, há um boca a boca natural, que faz com que as pessoas se sintam mais à vontade para experimentar”.

“Vertigem das Listas” é o trabalho novo da coreógrafa:

É o que deverá ocorrer com “Vertigem das Listas”, seu novo espetáculo, que se apropria do título de um livro de Umberto Eco. A obra incitou a artista e sua companhia a prestarem atenção nas diversas listas que aparecem no dia-a-dia. Ela também observou sua forte presença na literatura de Borges, Calvino, Joyce e Paul Auster, autores de quem gosta. Com essas referências, concebeu a montagem, que, como as listas, não tem uma história, “mas fluxos verbais e sequências de movimento”. Ambientado em um quarto cheio de caixas e livros, o espetáculo apresenta ideias, reflexões e imagens como fragmentos e justaposições. Referindo-se ao próprio trabalho como “teatro coreográfico” (em vez de dança), Regina conta que as listas aparecem em cena tanto na palavra falada quanto nos movimentos de cada intérprete, atuando como “texto, pretexto e contexto”. “Como acho que a plateia é inteligente, o que procuro é não ter uma única camada de sentido, que se imponha a ela e a torne passiva”, pondera a diretora das dançarinas Marina Salomon, Patrícia Niedermeier e Marina Magalhães. “Além disso, o uso da intertextualidade, que potencialmente desloca o foco do pessoal para o coletivo, é uma das marcas do meu trabalho: ao buscar a intercessão e as ressonâncias de outros textos e entremear outras vozes às nossas, as cenas ganham uma forma multivocal, que potencialmente gera perspectivas diversas e uma paisagem sonora interessante” .

Quem viu “Manuscritos de Leonardo”, o trabalho anterior de Regina, talvez consiga traçar um diálogo com “Vertigem das Letras”. A própria Regina acredita que o processo de criação do espetáculo novo começou no anterior, quando escolheram enunciar algumas das listas de Leonardo da Vinci e os capítulos de seus livros. “Ambos são trabalhos que têm como tema a vida e os processos de criação, nos quais as listas são presentes, talvez por favorecerem um certo tipo de ordenação, que não afaste ou esconda o desvio e a desordem”. Por conta disso, as apresentações no Jockey contarão com uma versão condensada de “Manuscritos” em 30 minutos seguida de “Vertigem”. Será um espetáculo composto de dois, na verdade. A temporada vai de 31 de outubro a 16 de novembro, com sessões de sexta a domingo às 21h, e ingressos a R$ 40.