(Foto: Leo Aversa)
(Foto: Leo Aversa)

Galã em ascensão na carreira, prestes a pegar um grande papel no cinema, se apaixona por um garoto de programa, mas tem que esconder seu relacionamento do público. É mais ou menos esse o argumento da peça “O Cachorro Riu Melhor”, escrita pelo americano Douglas Carter Beane, com versão brasileira do Artur Xexéo, que transferiu a trama para o Rio de Janeiro, com personagens de São Paulo.

Quem vive com competência o galã enrustido é Júlio Rocha (de “O Casamento do Pequeno Burguês”), e o garoto de programa é interpretado com humor artificial por Rainer Cadete (de “Os Campeões”). Mas é Danielle Winits (de “Xanadu”) quem carrega a peça, com o personagem que deu o Tony para Julie White na Broadway. No fundo, é a verdadeira protagonista. Ela faz a agente do ator, decidida a tomar qualquer providência para macular a orientação sexual do cliente, e garantir mais trabalhos para ele. Seu posicionamento e suas falas quase vilanizam com o terno romance, mas entregam o retrato de uma sociedade hipócrita. É um personagem-crítica, que revela os bastidores do show business e do preconceito mascarado de tanta gente. Um ator gay pode interpretar um gay, desde que não assuma sua própria sexualidade. Dessas incoerências da vida, e do entretenimento.

(Foto: Leo Aversa)
(Foto: Leo Aversa)

A ideia é boa, mas o texto é truncado no início, o que é agravado pela direção da Cininha de Paula (de “Meu Amigo Bobby”), que perde várias tiradas pelo ritmo empregado nas cenas. Há uma segunda personagem feminina, a cargo da atriz Sara Freitas (de “Rain Man”), que aparece a todo momento, desviando a história para outros lados. Ela é dispensável a maior parte do espetáculo, e o espectador só percebe sua utilidade no fim. Mesmo assim, perde-se muito tempo com uma trama paralela que nada acrescenta. Bom mesmo é a versão do Xexéo, com piadas que se comunicam especificamente com o público brasileiro.

O cenário do José Dias tem um quê de cinematográfico e é bem arquitetado. Os figurinos da Sonia Soares são naturais, e a trilha sonora do Ricardo Leão é um pouco inconveniente, principalmente quando abafa os diálogos. Na porta do teatro, uma senhorinha avisava que essa era “a pior peça que ela havia visto na vida”. Um exagero. Está longe disso. “O Cachorro Riu melhor” proporciona risadas tímidas e reflexões ácidas.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.