(Foto: Leo Aversa)
(Foto: Leo Aversa)

O fim da sessão de 180 minutos de “O Grande Circo Místico” pode ser descrito como a sensação de ter visto algo completamente diferente do esperado. As músicas do Chico Buarque e do Edu Lobo, extraídas do álbum de 1983, estão lá. Não se trata disso, mas da maneira como tudo é apresentado pelo diretor João Fonseca (de “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”). Não se vê um cirquinho infantil, com palhaçada e oba-oba, como muitos podem intuir. Ao contrário, é puro drama. Embora seja uma peça lúdica e poética, as crianças não são o público alvo de forma alguma. O picadeiro e a lona estão no palco, em cenários belíssimos assinados por Nello Marrese (um dos destaques da peça), mas também há muito mais – e esse mais é a grande questão.

O espetáculo conta a história de amor entre o médico aristocrata Frederico (Gabriel Stauffer, de “A Serpente”) e a bailarina de circo Beatriz (Letícia Colin, de “A Arte de Vencer na Vida Sem Fazer Força”), separados pela guerra. É justamente essa guerra que é esmiuçada e conduz a história, escrita a quatro mãos por Newton Moreno (de “Maria do Caritó”) e Alessandro Toller (de “Západ – A Tragédia do Poder”), para outro caminho. Há tortura, abuso sexual, fome, bomba, nudez, loucura e desespero. É uma história de amor, sim, mas também de separação, por todos esses elementos. Os autores conseguiram criar uma trama audaciosa e coesa com as músicas da trilha sonora pré-existente, e ainda abraçar outras quatro músicas: “Abandono”, “Valsa Brasileira”, “Salmo” e “Acalanto”. O número musical do Frederico cantando “O Circo Místico” é um bom exemplo da sintonia entre o texto em prosa e o texto em verso. Ele faz malabares com bombas, cercado por soldados feridos. Há ainda a tocante performance do Clown (Reiner Tenente, de “Tim Maia – Vale Tudo, o Musical”), torturado pelos militares, enquanto canta “A Valsa dos Clowns”. A plateia assiste ao sofrimento e à degradação de um palhaço, símbolo de alegria. De uma poesia…

Embora o espetáculo se passe pouco no picadeiro em si, porque a guerra toma a maior parte da história, os elementos circenses marcam toda a trajetória. Os atores dominam técnicas de circo e as coreografias da Tania Nardini são inteligentemente articuladas com as cenas, marcando os diferentes momentos com muita leveza. O trabalho dela chama especial atenção no número da Beatriz com os cavalos (Leo Abel, de “Miss Saigon”, e Douglas Ramalho, de “O Leite da Jaracoa”). Mas a apresentação da contorcionista Natasha Jascalevich é, neste sentido, a que arranca mais aplausos.

Musicalmente, agradam as performances do Fernando Eiras (de “In On It”), que vive o administrador do circo; da Paula Flaibann (de “Alice no País das Maravilhas”), que interpreta Lily Braun; e da Ana Baird (de “Meu Sangue Ferve Por Você”), a mulher barbada. Os três se destacam em momentos pontuais com relação ao elenco, que está bastante harmônico, absolutamente competente. Eiras e Baird, ainda, chamam atenção com a densidade de suas interpretações, que carregam a dramaticidade do espetáculo.

(Foto: Leo Aversa)
(Foto: Leo Aversa)

“O Grande Circo Místico” é um grande acerto, que se inicia na trilha pré-concebida, ganha força no texto criativo dos dramaturgos e se acentua nas mãos do João Fonseca. Tratar de uma guerra com a poética circense é uma proposta enriquecedora, além de um desafio. O público assiste a uma superprodução de qualidade elevada, que pode ser diferente da que imaginou que veria quando saiu de casa, mas arrisco-me a dizer: também melhor.

O musical está em cartaz no Theatro Net Rio, em Copacabana, com ingressos entre R$ 50 e R$ 150. As sessões são quintas e sextas às 21h, sábados às 21h30 e domingos às 20h.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.