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O espetáculo “O Grande Livro dos Pequenos Detalhes” é cosmopolita, fruto da colaboração de artistas de três países diferentes. O dramaturgo é inglês, dois atores são brasileiros e duas atrizes são portuguesas. Em cena, sotaques se misturam e se entendem, e o texto de Alexander Kelly (da Cia. Third Angel), fruto de um processo colaborativo, harmoniza essas diferentes perspectivas artísticas e culturais. Há coesão nessa dissonância de vozes.

(Foto: Cábera)
(Foto: Cábera)

A encenação começa assim que o espectador entra na sala do teatro, pois os atores já estão no palco, andando em torno de uma enorme barraca de camping armada – principal elemento do cenário criado por Elsa Romero. Quando as luzes se apagam, é hora de conhecer esses personagens. Eles estão ali, acampados e isolados, participando de um brainstorming. Os quatro fazem parte do Departamento de Clarificações e Distrações. Departamento da onde, não fica claro, mas isso dá um sabor especial, porque o espetáculo permite leituras com diferentes associações e motivações. O fato é que eles buscam ideias para distrair a sociedade (uma baleia encalhada? Um novo chupa-cabra? Uma cidade que amanhece com telhados pintados de rosa? Ou imitar os ingleses, e distrair o povo com a Família Real?) – distrair de quê e para quê fica ao critério do espectador. Para profissionais de comunicação, é um material fascinante, e lembra a teoria do gatekeeper. Em seguida, inicia-se outra trama, exemplificadora, com os atores interpretando personagens diferentes: inusitadamente, uma locutora de rádio dá informações de trânsito falsas, causa um caos na cidade, em especial, na vida de um ouvinte. No dia seguinte, ela não vai trabalhar e ninguém sabe onde ela está, o que gera um desenrolar policial, com esse ouvinte e uma amiga seguindo pistas para encontrá-la.

O elenco, formado por Cláudia Gaiolas (de “Mundo Maravilha”), Michel Blois (de “Adorável Garoto”), Paula Diogo (de “Mundo Maravilha”) e Thiare Maia Amaral (de “Adeus à Carne”), se desenvolve com destreza, e Paula é particularmente engraçada. Cláudia Gaiolas, em alguns momentos, remete a Lena Dunham. É impossível dizer, no entanto, que o sotaque português não atrapalha: às vezes, quando as atrizes falam rápido demais, a dicção é incompreensível, mas não chega a comprometer o desenvolvimento da cena. É curioso também que os quatro atores tenham optado por se dirigirem, todos, e isso não tenha resultado em algo ruim. De forma alguma. A encenação é interessante.

A trilha sonora e a sonoplastia também proporcionam bons momentos na peça, e os figurinos e a iluminação são suficientes. “O Grande Livro dos Pequenos Detalhes” vale o ingresso, que ainda é baratinho.

(Foto: Cábera)
(Foto: Cábera)

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qua a dom, 20h. R$ 20. 70 min. Classificação: 14 anos. Até 14 de junho. Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo. Tel: 3131-3060.