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A comédia “O Olho Azul da Falecida” é inglesa em suas entranhas e a tradução de Barbara Heliodora manteve todo o distanciamento geográfico e temporal do texto, escrito há 50 anos por Joe Orton. A história subverte o luto ao pôr em cena um filho escondendo dinheiro roubado no caixão da mãe e colocando o corpo dela preso em um armário, de cabeça para baixo. Enquanto isso, a enfermeira da falecida tenta agilizar seu plano de se casar com o viúvo, de olho na herança. Todos os personagens tentam se dar bem em meio ao velório, e um policial provoca trapalhadas e situações sem noção ao investigar o roubo de um banco e um suposto assassinato nesta casa.

(Foto: Guga Melgar)
(Foto: Guga Melgar)

A trama respeita os paradigmas clássicos e se passa em um único dia, em um único ambiente – um cômodo da casa dessa família. O cenário de José Dias traz portas dos dois lados, para ajudar nas entradas e saídas dos atores, sendo uma porta para a rua e a outra para outro cômodo da casa. Há um armário, importante para a trama, e algumas estruturas de madeira em cena, incapazes de definir que parte da casa é essa – mas conclui-se que seja um hall de entrada. Pai, filho, enfermeira, policial, agente funerário… todos entram e saem dali de acordo com as necessidades dramáticas do texto.

O humor britânico é facilmente reconhecido na encenação, com velocidade e piadas que nem sempre funcionam por aqui. Em alguns momentos, nota-se a necessidade de uma ou outra adaptação no texto para melhor comunicação com a plateia brasileira, e de uma direção mais atenta e minuciosa por parte de Sidnei Cruz (de “O Auto da Compadecida”). A montagem da Cia. Limite 151, que no geral entretém, é protagonizada por Tuca Andrada (de “São Seis Aulas de Dança Em Seis Semanas”), na pele do detetive policial. O personagem tem potencial carismático acima do que seu intérprete alcança.

(Foto: Guga Melgar)
(Foto: Guga Melgar)

O destaque do elenco acaba sendo Mário Borges (de “A Estufa”), que explora bem todas as nuances do seu papel, o viúvo enlutado, e proporciona muita diversão na segunda metade da peça, quando o patriarca começa a perceber tudo que acontece a sua volta. Gláucia Rodrigues (de “O Auto da Compadecida”), Rafael Canedo (de “Fazendo História”) e Helder Agostini (de “Fazendo História”) também estão bem em seus personagens corruptíveis e desonestos. Os figurinos, de Samuel Abrantes, ajudam na composição britânica de época, somando aos atores.

“O Olho Azul da Falecida” tem altos e baixos, e a maioria vem do próprio texto, mas diverte. Como comédia, não mata de rir, mas provoca risadinhas.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a sáb, 19h30; dom, 18h30. R$ 60 (qui e sex) e R$ 70 (sáb e dom). 100 min. Classificação: 10 anos. Até 21 de junho. Teatro Maison de France – Avenida Presidente Antônio Carlos, 58 – Centro. Tel: 2544-2533.