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(Foto: Divulgação)
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Cursei artes cênicas na UNIRIO e sempre sentia um leve torcer de nariz quando falava do meu envolvimento com o teatro musical, claro que tudo era feito com muita discrição já que, no meio artístico, quem tem preconceito com algo sofre preconceito por parte de alguém tão preconceituoso quanto. Sempre me perguntei por que não há uma matéria de teatro musical nos cursos acadêmicos de teatro. Como o nome já diz, TEATRO MUSICAL é antes de tudo teatro. Movido por esse incômodo com o incômodo alheio, fui pesquisar e conclui que esta “aversão” pelo gênero não começou com meus colegas que na época achavam menor qualquer arte que obtivesse maior popularidade como o musical, o stad up comedy, entre outros.

A origem do teatro musical está em manifestações da cultura popular, afastadas de qualquer pretensão de satisfazer as necessidades das academias e dos salões das grandes artes. Pode-se dizer que ele nasceu nas feiras, nos mercados, nas praças e até mesmo nos prostíbulos e em festas populares. Por ter vindo das “ruas” e por sua ligação com a comédia, o teatro musical foi colocado num lugar inferior de prestígio.

Mas o teatro musical passa a agradar ao povo que começa a pagar por essa “sub-arte” e, com isso, este gênero não só sobrevive, como se torna independente e passa a ser uma arte de mercado com condições de sustentar seus artistas. Essa independência foi mal vista por todos os poderes, pois havia uma grande valorização desta cultura vista como grosseira, superficial e alienada do povo e da plebe, que passava a ameaçar o que acreditavam ser a “grande arte” – a luz das ideias.

Outro gênero que influenciou de forma significativa o teatro musical foi a opereta, que é definida segundo Pougin no Dictionnaire du theatre (1885:567) como pequena ópera de pouca importância, antes da extensão que a coisa adquiriu nos nossos dias. Para Pougin, era mais justo chamá-la de ópera-bufa ou de ópera cômica.

Existiu também uma aproximação entre a opereta e o vaudeville, já que as canções do vaudeville se tornaram meios de expressão teatral de forte apelo popular nos teatros das feiras parisienses.

O teatro musical chega ao Brasil no séc. XIX, sob influência da França e de Portugal (implantado no país). Vale ressaltar que, também no Brasil, o Teatro Musical teve quem o difamasse no século XX como é o caso dos acadêmicos, intelectuais e escritores. Segundo Tânia Brandão, grande pesquisadora do gênero, os argumentos que eram disseminados contra o gênero musical não tinham análise crítica consistente, por se tratar de uma abordagem parcial dos fatos.

O raciocínio acima nos revela um pensamento tendencioso, que dura até hoje de forma mais sutil e que coloca o teatro musical em um lugar inferior, insinuando uma baixa qualidade artística do gênero, além de fazer uma leitura distorcida sobre o Mercado.

Diferente do que alguns acreditam, o teatro musical não é uma manifestação com o objetivo de entreter apenas, aliás vai muito além disso. Ou alguém consegue se divertir e não levantar alguma questão ao assistir “Gota d’água” ou “Quase Normal”?

Acho importante percebermos a função que o teatro musical vem cumprindo ao voltar a fazer com que casas de espetáculos e teatros voltem a lotar. Inúmeras vezes, escutei depoimentos de pessoas que nunca tinham ido ao teatro e disseram: “Se eu soubesse que era tão interessante, teria ido assistir mais peças”. Claro que estas pessoas precisam “treinar” seus olhares e apurar seus gostos em relação ao teatro, mas já não é um primeiro passo? Insisto muito para que atores/cantores/dançarinos que também atuam em musical estudem incansavelmente, pois se em cena a “técnica vazia” acontece, mas a alma e a essência do ator ficam em segundo plano ou nem existem, damos mais motivos ainda para classificarem nossa arte como menor.

Acredito que só a cultura e a educação podem mudar o mundo de alguma forma e, baseado neste princípio, quando percebo que alguém sai transformado ou tocado de alguma forma ao assistir um musical confirmo então que a arte cumpriu sua função: TEATRO MUSICAL é antes de tudo TEATRO, logo é arte pulsante e potente.

Reiner Tenente é ator, cantor, professor, preparador de elenco e fundador do Centro de Estudos e Formação em Teatro Musical (CEFTEM).