Se as máquinas digitais causaram uma reviravolta na maneira como o público interage com a arte, o que dizer dos smartphones e das redes sociais? Com poucos cliques, fotos e vídeos de uma peça podem chegar à Internet, antes mesmo (e geralmente é assim) que a obra termine. Imagens descontextualizadas, que podem ser interpretadas ao bel prazer de diversos internautas. O pavor de muitos produtores é também o trunfo de tantos outros. Plataformas como Youtube, Instagram, Twitter e o primo mais velho Facebook, que completou dez anos de existência recentemente, exigem readaptação e reeducação.

(Foto: Montagem / Reprodução/Instagram)
(Foto: Montagem / Reprodução/Instagram)

O aviso é claro antes do início de qualquer espetáculo: “é proibido filmar ou fotografar sem autorização prévia”. Mas quem vai ver se você tirar uma foto, rapidinho, sem flash? Só para mostrar para os amigos onde você está! A ideia de se desconectar é absurda para muitos. Com isso, as chamadas de atenção são inevitáveis. “Nunca interrompi o espetáculo para reclamar, mas já parei e disse ‘Vou fazer uma pose para ficar bonito no seu vídeo proibido do Youtube’. Todo mundo riu e a menina ficou super envergonhada. Guardou o celular. Sem ser rude, deixei clara minha posição”, o comediante Rafa Luz, do monólogo “Comédia em Chamas”, conta ao Teatro em Cena.

Ele admite que a Internet é seu principal meio para promover seu trabalho, mas não é favorável à divulgação de fotos e vídeos clandestinos na web. Para Rafa, o material pode fazer as pessoas perderem o interesse e a curiosidade por um espetáculo. É claro que também pode se tornar viral e atrair mais público, mas vale arriscar? “Sou contra. Prefiro não arriscar”, afirma o ator, que tem seus próprios meios para alcançar os potenciais espectadores on-line. “Quem não é visto não lembrado. Uso as redes sociais especialmente para promoções. Assim, um amigo conta para outro, que conta para outro…”.

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Outros pensam diferente. Ciro Barcellos, do grupo Dzi Croquettes, permite que o público faça fotos e vídeos durante suas performances. “Podem fotografar, gravar, tudo! Depois compartilhem na Internet!”, ele incentiva a plateia, que costuma obedecê-lo. No Youtube, é possível encontrar trechos de diversas apresentações, nos mais variados níveis de qualidade. Ele acredita que isso ajuda no boca a boca, que é a melhor divulgação, na sua opinião. A atriz Fernanda Souza segue a mesma linha.

Em turnê com o monólogo “Meu Passado Não Me Condena”, ela avisa logo que entra no palco: “Pode tirar foto sim! A peça é minha, eu que mando!”. Era tudo que o público queria. Neste momento, diversos celulares são apontados na direção dela, como se fosse a plateia de um show. “Só peço que tirem o flash, porque sou loira e me desconcentra”, brinca. Como no caso do Dzi, há muito material fruto dessa divulgação espontânea nas redes. Os vídeos, especificamente, ela não autoriza – mas não tem como evitar. O foco da Fernanda é o Instagram. Quando a peça está terminando, ela avisa que as fotos postadas com a hashtag do nome do monólogo serão curtidas por ela. “E eu curto mesmo! Pode acreditar. Tem gente que não acredita e depois dá print, aí eu curto de novo!”.

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Cada um lida de uma maneira. Ao público, vale sempre o bem senso. Se autorizados, que se fartem com as fotos e gravações. Se não, que se divirtam com a peça que é apresentada na sua frente. O que não vale é ficar preso no celular e não olhar para o palco. Os atores sempre percebem quando há algo acontecendo, por causa da iluminação dos aparelhos. “Eu grito do palco: ‘Ô maluco, sabe como eu sei que você tá mexendo no celular? Só a sua cara está acesa no meio da plateia!’. Pronto!”, conta Rafa Luz. Readaptação, reeducação. No mais, como pregaria Sandra Annenberg, o melhor é apostar na elegância.