(Foto: Divulgação)

Dramaturgias focadas em relações entre irmãos podem parecer, a priori, clichês e sem novidades. Contudo, ao longo de 50 minutos de montagem, o que as atrizes Jaqueline Roversi (de “Matéria de Poesia”) e Jordana Korich (de “Vocês que habitam o tempo”) apresentam na peça “Pandora” é um enredo empolgante onde duas irmãs, completamente diferentes, se reencontram na casa onde passaram a infância e esse cenário estimula a expansão de consciência das suas origens não somente familiares, mas também enquanto mulheres.

Enquanto Janaína (Jaqueline Roversi) nunca saiu da casa da família, é artista plástica e ama a vida bucólica, Joana (Jordana Korich) tem a personalidade austera, já incomodou muita gente por ser uma mulher à frente de um projeto de engenharia, mas retorna ao seu antigo lar em razão dos problemas financeiros que enfrenta após ser demitida. A simplicidade do ambiente e a atmosfera extremamente lúdica do local propiciam que Joana mesmo diante da sua “racionalidade” se interesse pela herança imaterial presente em um baú que guarda “tesouros” da família, memórias e lembranças das duas, de sua mãe e de antepassados.

(Foto: Chico Cerchiaro)

Em entrevista ao Teatro em Cena, Jordana esclarece como foi o processo criativo do espetáculo, dirigido por Leona Cavalli (de “O Príncipe”).

– O texto é fruto de três anos de pesquisa de mitologias ancestrais ligadas ao feminino e nesse processo observamos as distorções das narrativas ao longo da história. Há um histórico de civilizações no processo de colonização que acabam dominando a cultura de um povo e modificando muitos elementos. Então, muitas coisas que eram sagradas foram “alteradas”. – diz

Jaqueline exemplifica que o mito de Pandora é um desses casos.

– Pandora significa “a grande doadora, a doadora de tudo”. Porém, o seu real sentido foi distorcido e virou “uma mulher que foi dada para o irmão de Prometeu para investigá-lo”. Diante de situações como essas resolvemos fazer uma peça que evidenciasse essas distopias e demonstrassem que nós acabamos sendo fruto de uma construção social, que muitas vezes não reconhecemos. Queríamos falar da dualidade da mente. Por isso, na dramaturgia, buscamos brincar com a história de duas irmãs, que enquanto uma é do mercado financeiro, racional; a outra é completamente aberta, sensível, artística e que lida mal com essa estrutura social de buscar um emprego e se tornar assalariada. – explica.

(Foto: João Julio Mello)

Ao explorar o baú durante a narrativa, as atrizes levam à cena três contos das culturas grega, hebraica e hindu, respectivamente “Deméter e Perséfone”, “Sophia e a criação”, “Ganesha e Kartikeia” e ainda a história das icamiabas, conhecidas como as “amazonas brasileiras”. Interpretando a irmã sonhadora, Jaqueline Roversi explica a escolha dessas histórias para refletir sobre os símbolos do feminino:

– Tudo começou quando estudamos o livro “Mulheres que Correm Com os Lobos”, de Clarissa Pinkola, em que nos debruçamos sobre a mitologia das deusas de diversas culturas. Diante disso decidimos fazer uma peça que tivesse um viés de contação de histórias, até porque essa faceta já é presente no livro. Nós também tentamos passar que não há uma irmã certa ou errada na trama. Na verdade, elas têm visões distintas e acabam entrando em conflito porque uma não respeita o modo de viver da outra.

Jordana complementa: “até porque nós somos formados por essas dualidades. Convivemos com o lado racional e outro mais sensitivo e muitas vezes é um grande desafio equilibrar as duas vertentes”.

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SERVIÇO: sex e sáb, 19h; dom, 18h. R$ 40. 75 min. Classificação: 12 anos. Até 9 de setembro. Casa de Cultura Laura Alvim – Teatro Rogério Cardoso – Avenida Vieira Souto, 176 – Ipanema. Tel: 2332-2015.