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Livremente inspirado no filme “Denise Está Chamando” (1995), o ator e diretor Leonardo Netto (de “Conselho de Classe”) criou o espetáculo “Para os Que Estão em Casa”, em cartaz no Espaço Sesc, em Copacabana. É sua estreia como dramaturgo. Na peça, é mantido o fio condutor central do longa-metragem cômico: amigos em contato constante pelo telefone, sem nunca se encontrarem pessoalmente, embora vivam na mesma cidade e tenham um passado comum. Todo mundo ocupado demais para se locomover ao encontro do outro. O filme é bastante visionário, porque data de antes da popularização da Internet (o que potencializou a questão). Para atualizar a reflexão contemporânea, Netto inseriu computadores, redes sociais e smartphones na história. São os aparatos tecnológicos que mascaram a solidão social: cada vez menos interações humanas e mais entre pessoas e telas luminosas.

(Foto: Vicente de Mello)
(Foto: Vicente de Mello)

O texto é cheio de preciosidades e diálogos que não poderiam retratar de forma mais genuína os nossos tempos. O espetáculo começa com um dos muitos telefonemas que conduzirão a história: uma amiga ligando para a outra para saber como foi a festa que ela deu na noite anterior. Mas não foi só ela que não foi. Ninguém foi. “Não deu”. Nunca dá. É um início emblemático: a solidão e as relações intermediadas já estão ali. Mas o espetáculo não é condenatório nem recriminador. Está mais para uma comédia de costumes, com momentos (bastante) dramáticos, é verdade. É para rir de si mesmo ao se perceber no outro. “Quando foi que nos tornamos isso?”.

O cenário de José Dias exerce papel fundamental, e tem brilhantismo próprio. Há um tapete vermelho delimitando o espaço no teatro de arena, com uma mesa de madeira no meio. Ao redor dela, estão, sem divisórias físicas, poltronas, sofás, cadeiras, escrivaninhas… cada uma para um personagem, representando seu lar. Todos estão próximos – como nas ligações telefônicas – mas distantes ao mesmo tempo – já que não interagem entre si. Cada ator contracena com seus telefones. E os figurinos, de Marcelo Olinto, entregam a despreocupação com a aparência, já que os personagens estão escondidos entre si atrás de suas vozes. Então, optam por itens confortáveis e quase desleixados, de “ficar em casa”, por mais que descrevam o contrário, se forem fazer sexo por telefone. Porque, na nossa sociedade, ninguém precisa mais se encontrar nem para transar. Transa-se com palavras, e finge-se mais do que nunca.

O que é estar presente fisicamente? Cenário questiona falsa proximidade das relações intermediadas (Foto: Julia Rónai)
O que é estar presente fisicamente? Cenário questiona falsa proximidade das relações intermediadas (Foto: Julia Rónai)

Há algumas derrapadas no espetáculo, no entanto. Embora os personagens estejam sempre mexendo em computadores e tablets, eles estão pouco inseridos na história. Os amigos falam entre si apenas por telefonemas – e não por Facebook ou Whatsapp, por exemplo. A rede social e o aplicativo são citados, o que prova que a trama se passa no tempo presente, mas eles são mal explorados. É inegável que a plateia se identifica com as relações intermediadas por aparelhos, mas uma segunda reflexão mostra que a gente não se telefona tanto assim hoje em dia. Em 1995, talvez. Em 2015, até o áudio é o do Whatsapp. Então, a concepção do Leonardo Netto, que assina a direção, fica no meio do caminho.

Além disso, alguns personagens são deixados de lado por tanto tempo que parecem terem sido esquecidos. A responsável por conduzir a história e ser o ponto central entre as diversas relações é Vera (interpretada pela cativante Ana Abbot, de “Amores”). Ela quer que o amigo do ex-namorado se encontre com sua amiga em um encontro às escuras e tudo se desenrola a partir daí. Mas Lídia (Adassa Martins, de “Temporada de Verão”), o papel que dá início ao espetáculo, com a festa fracassada, não mostra a que veio e pouco participa das outras tramas. Quanto ao elenco, Isabel Lobo (de “O Grande Circo Místico”) é bastante envolvente e Renato Livera (de “Temporada de Verão”) está especialmente engraçado.

Vale o ingresso, e a temporada é curta, então não perca tempo.

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SERVIÇO: qui a sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 20 (ou R$ 5 para associados Sesc). 80 min. Classificação: 14 anos. Até 8 de fevereiro. Espaço Sesc – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.