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“Paraíso Zona Sul” é resultado de um trabalho do Grupo Fragmento a partir de seis textos do dramaturgo Jô Bilac (de “Conselho de Classe”), publicados em um site e até então nunca montados profissionalmente. São esquetes independentes, que têm em comum o trato de conflitos familiares, com bom humor, desfechos inesperados e uma carência de realidade. É tudo um tom acima do padrão social para satirizar os costumes. O problema é que todas as historinhas parecem esboços de algo que poderia ser bom, mas não chega a ser.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

O espetáculo começa com um telefonema anônimo para um doceiro, informando que sua mulher é infiel. Em seguida, a própria chega à loja e conta uma novidade: está grávida. O sujeito, então, fica nesse impasse: confia nela e fica feliz ou acredita na ligação do desconhecido? É o primeiro esquete, e não causa uma boa impressão. A cena se estende mais do que o necessário em vários momentos e resulta maçante, sem um desfecho apresentável. O texto é equivocado, a direção de Nirley Lacerda (de “A Prostituta Respeitosa”) mais atrapalha do que ajuda, e só a interpretação de Diogo de Andrade Medeiros (de “Desalinho”) se salva. O elenco, aliás, está muito bem: são cinco atores se desdobrando em 17 personagens de maneira envolvente. Ana Carolina Dessandre (de “A Prostituta Respeitosa”), Carolina Ferman (de “Desalinho”), Elio de Oliveira (de “Paralelamente”) e Monique Vaillé (de “Paralelamente”) compõe o time.

A encenação engrena na segunda história – de uma mulher exigindo que o namorado passe em um concurso público para que possam se casar sem passar aperto. Há várias boas ideias nos esquetes, com destaque para o do pai interrogando o namorado da filha sobre suas intenções: por que ele quer casar com ela, se ela é tão feia? É uma cena bem construída, que provoca muitas risadas. Mas, no geral, todos os esquetes têm tropeços no texto, aquém do que se espera de Jô Bilac, e na direção, sem ritmo. A Zona Sul do título, vale ressaltar, em nada agrega.

(Foto: Divulgação)
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O cenário de Vanessa Alves demarca no chão os diferentes ambientes para cada história, com uma encruzilhada no meio. Embora interessante à primeira vista, sua concepção se revela limitadora. Os espaços vão sendo eliminados conforme os esquetes são apresentados e, do meio para o fim da peça, a encenação acontece principalmente no fundo da sala, distante do público, deixando a metade dianteira do palco inutilizável. E ainda há uma história que desrespeita a própria imposição cenográfica e os personagens transitam pela casa, que ganha todo o palco, atravessando a encruzilhada, o que é estranho até mesmo teatralmente. Então, o cenário não funciona. Mas os figurinos de Patrícia Muniz são competentes, diferenciando bem cada personagem e cada momento do espetáculo. A iluminação é básica.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qua a sex, 20h. R$ 20. 60 min. Classificação: 16 anos. Até 22 de maio. Sede das Cias – Escadaria Selarón – Rua Manoel Carneiro, 10 – Lapa. Tel: 2137-1271.