O que “Cachorro!”, “Rebú” e “Cucaracha” têm em comum? São três peças contemporâneas, escritas pelo dramaturgo carioca Jô Bilac – o mesmo da aclamada “Conselho de Classe”. Mais do que isso. São três espetáculos dirigidos por Vinícius Arneiro (de “Cássia Eller – O Musical”). E não para por aí. A atriz Carolina Pismel (de “Maravilhoso”) também está no elenco dos três. Claro que isso tudo não é uma coincidência do destino. “Cachorro!”, “Rebú” e “Cucaracha” formam o repertório elogiado da Cia. Teatro Independente, que comemora oito anos de existência, com uma mostra no Teatro Glauce Rocha, no Centro. Até o dia 13 de julho, o local abrirá espaço para as apresentações das produções da companhia.

Paulo Verlings, Júlia Marini, Carolina Pismel e Vinícius Arneiro no fim da sessão de "Cucaracha" na estreia da mostra. (Foto: Leonardo Torres)
Paulo Verlings, Júlia Marini, Carolina Pismel e Vinícius Arneiro no fim da sessão de “Cucaracha” na estreia da mostra. (Foto: Leonardo Torres)

Júlia Marini, que desde a semana passada é vista em “Cucaracha”, e Paulo Verlings, que aparecerá em “Cachorro!” e “Rebú”, completam os nomes do grupo. São cinco artistas ao todo, incluindo atores, diretor e roteirista. Quando a companhia foi fundada, eram seis – com Felipe Abib (de “Philodentrus”), mas ele teve que se desligar. O time se conheceu na escola de teatro e se uniu à Carolina em um festival. “Fundamos quando a conhecemos, por pura afinidade de trabalho mesmo. Foi um encontro especial”, relembra Verlings, que é casado com a atriz. “A gente sempre levou nosso trabalho muito a sério e sempre prezou pela qualidade. É gratificante como artista olhar uma trajetória curta, de oito anos, e ver que os trabalhos têm uma repercussão muito significativa no panorama brasileiro”. Em 2011, “Rebú” e “Cachorro!” fizeram parte do projeto Palco Giratório, que rodou 21 estados. Aos restantes, a companhia chegou por conta própria. Ela já passou por todos os estados com suas três produções. “Cucaracha”, a mais recente, volta ao Rio diretamente de uma temporada em São Paulo.

A primeira montagem do grupo foi “Cachorro!”, em 2007. Na mostra no Glauce Rocha, ela será a última apresentada. A peça narra a história de uma mulher casada, que tem o melhor amigo do marido como amante. Encená-la, hoje, é uma revisita às origens da companhia. “A gente faz ‘Cachorro!’ há sete anos e ‘Rebú’ há cinco. É muito interessante poder revisitá-los, e entender o que modificou no seu trabalho como ator, e o que era o trabalho há sete anos. É inevitável que você faça modificações. Sou um ator completamente diferente do que era há sete anos”, analisa Paulo Verlings, em entrevista concedida ao Teatro em Cena. Ele só não aparece em “Cucaracha”, que tem duas personagens femininas na trama: uma enfermeira e uma paciente em coma. Mas quem prestar atenção identificará sua voz em um alto-falante na parte final do espetáculo. “Faço a direção de produção e participei da criação do trabalho também. Acabei estando em cena de outra forma, não presencialmente, mas com esse alto-falante”.

Paulo Verlings, Carolina Pismel e Vinícius Arneiro em "Cachorro!". (Foto: Paula Kossatz)
Paulo Verlings, Carolina Pismel e Vinícius Arneiro em “Cachorro!”. (Foto: Paula Kossatz)

O quinteto preza pela pesquisa continuada e pelo processo colaborativo. Jô Bilac escreve os textos na sala de ensaio, ao mesmo tempo em que o espetáculo cênico é concebido. Durante a elaboração do roteiro, os atores e o diretor interferem com críticas, sugestões e opiniões de um modo geral. “A gente colabora muito, e o Jô é muito aberto. É um facilitador. Ele serve à obra e isso é incrível. É um grande privilégio ter um dramaturgo na sala de ensaio”, aponta o ator. “Ele vai produzindo de acordo com o que a gente produz, e todos nos influenciamos pelo que os outros fazem”. Para Paulo Verlings, esse é o maior diferencial de fazer parte de uma companhia teatral: poder emprestar seu olhar artístico.

A liberdade criativa é maior neste contexto, segundo o ator. Ele explica que, em um grupo teatral, todos têm poder de criação, de decisão e principalmente de diálogo. Assim, fica mais fácil desenvolver uma linguagem de trabalho, porque há uma ligação direta e os atores podem se propor novas direções o tempo todo. Em “Cucaracha”, por exemplo, há uma cena inteira que é resultado de uma composição do ator. “Isso mostra a inteligência do Vinícius como diretor, de estimular na gente essa prática do processo colaborativo. A coisa se desenrola de forma mais ampla. Não está tudo na cabeça do diretor ou do dramaturgo”, explica. “É óbvio que é um trabalho democrático. Se eu mostro meu ponto de vista e os quatro discordam, é assunto encerrado”.

Paulo Verlings com Júlia Marini em "Rebú". (Foto: Paula Kossatz)
Paulo Verlings com Júlia Marini em “Rebú”. (Foto: Paula Kossatz)

Como dito, no entanto, eles têm muita afinidade. Além disso, para permanecerem juntos por oito anos, a admiração mútua foi um fato de suma importância. Durante a entrevista, Paulo elogia todos os membros. Carolina é “uma das maiores atrizes da geração dela”; Júlia, “uma parceira de cena incrível”; Vinícius, “um diretor muito sensível”; e Jô, “o maior dramaturgo vivo no país”. A maioria dos elogios atestados em premiações teatrais. “E ainda tem nossa relação de amizade, fora do trabalho”, completa.

A mostra é uma ótima oportunidade de ver o trabalho dos cinco em ação, mas também levanta uma questão: quando haverá um novo espetáculo? “Cucaracha” estreou há dois anos, afinal. Mas não há previsões para antes de 2015. Jô Bilac, Paulo Verlings, Carolina Pismel e Júlia Marini foram convidados por Marco Nanini (de “A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe Para Pedir um Aumento”) para fazer parte da peça “Beije Minha Lápide”, que estreará em agosto. Os meses seguintes serão dedicados a esse projeto, que homenageia Oscar Wilde. “É bom que a companhia vai estar em movimento. Vamos estar trabalhando como companhia convidada”, diz Verlings. “Esse trabalho vai ter uma duração expressiva, porque já temos uma agenda grande, então acredito que o próximo espetáculo da companhia só sairá no ano que vem”.