“Ensaio” é como o título induz: fragmentado, confuso, dinâmico. Não são assim os ensaios? Às vezes produtivos, às vezes não, às vezes bons, às vezes ruins. Esse espetáculo, escrito e dirigido por Leonardo Moreira (de “O Jardim”), é bom, mas não é fácil. Em cartaz na Caixa Cultural, no Centro, a peça leva a metalinguagem ao extremo e, assim como os personagens, que não sabem mais o que é realidade e o que é ficção, o público também se perde entre os dois universos possíveis. Quando a peça termina, interrogações pipocam. Ela exige uma reflexão para organizar as ideias.

(Foto: Otávio Dantas)
(Foto: Otávio Dantas)

Na trama, Artur (Rafael Primot, de “O Desaparecimento do Elefante”) é um roteirista de cinema mal sucedido, que trabalha como jornalista para sobreviver. Durante uma entrevista, conhece a atriz Marília (Maria Helena Chira, de “Vidas Privadas”), que é muito semelhante à sua ex-mulher Norma, também atriz, e morta em um acidente de carro. Os dois se envolvem e, apaixonada, ela aceita ser o papel que ele deseja que ela seja: o da mulher morta. Há ainda um terceiro personagem, um fotógrafo, chamado apenas de F. (Fabricio Licursi, de “Experiência”), que mantém uma obsessão pela atriz. O texto é propositalmente complexo, mas sem deixar de ser envolvente. A história fala sobre obsessões em suas mais variadas formas – por um amor, por um ídolo, por um trabalho, por algo inalcançável. É especialmente interessante o flerte com o cinema, com diversas referências a diálogos de filmes (a maioria por meio de F.), listadas no programa da peça, e projeções do que acontece na cena em linguagem cinematográfica.

A iluminação de Marisa Bentivegna e os vídeos de Fernanda Timba, que aparecem em momentos específicos, lembram que tudo pode ser ou não ser. São fundamentais para a concepção do espetáculo, que também conta com um cenário rotativo (de André Cortez) recriando quatro cômodos de um apartamento. A maneira como a direção optou por usar o cenário, girando-o durante as cenas, é perturbadora e agregadora de valor. Quando é utilizada para demonstrar passagem de tempo, especificamente, impressiona, porque realmente parece um filme.

(Foto: Divulgação / Otavio Dantas)
(Foto: Divulgação / Otavio Dantas)

O elenco, que participou da criação do texto de maneira colaborativa, está seguro em seus papeis e seus contextos. Parecem entender o que estão fazendo, ainda que para o público seja mais custoso. “Ensaio” é, com certeza, uma boa experiência – turbulenta, mas instigadora. Na pior das hipóteses, fornece um ótimo leque de filmes para ver. Alfred Hitchcock, Woody Allen, Pedro Almodóvar, Quentin Tarantino…

A temporada é curta: vai até o dia 31 de agosto, com ingressos populares (R$ 10). As sessões ocorrem de quinta a sábado às 19h30 e domingo às 18h. A classificação indicativa é de 14 anos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduação em Jornalismo Cultural.