resenha-3estrelasemeia

Com o título de “Uma Revista de Ano – PoliticaMente Incorretos”, a atriz Ana Velloso (de “SamBra”) idealizou, escreveu e levantou o espetáculo que a sociedade precisava. Com o formato de comédia musical, a peça faz um retrospecto do que se passou com o Brasil desde a fatídica goleada sofrida na Copa do Mundo de 2014. O placar de 7 x 1 da seleção alemã contra a brasileira é o start para falar da última campanha eleitoral, da crise econômica, da falta d’água, dos escândalos de corrupção e das polêmicas dos bastidores da vida política. Tudo em tom de sátira.

(Foto: Guga Melgar)
(Foto: Guga Melgar)

A estrutura é metalinguística. Em cena, Cristiano Gualda (de “SamBra”), Cristiana Pompeo (de “Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical”), Hugo Kerth (de “Fazendo História”), Édio Nunes (de “SamBra”), Wladimir Pinheiro (de “SamBra”) e Ana interpretam atores criando esquetes e montando um espetáculo de revista de ano. Ou seja, exatamente o que define “PoliticaMente Incorretos”. O texto é fluído e inteligente, retratando cenas emblemáticas em tom de caricatura e sátira social. A fórmula pode lembrar a de humorísticos televisivos, como “Tá no Ar: a TV na TV” e até mesmo o extinto “Casseta & Planeta”, para o bem ou para o mal. Mas, por vezes, a peça faz piada sobre si mesma. Há, por exemplo, uma espectadora senhorinha, interpretada por Cristiana, que comenta algumas cenas atendendo ao celular no meio do espetáculo e dizendo que a montagem é simplesinha, mas divertida. E é isso mesmo.

Não há um cenário propriamente dito. Apresentada no teatro de arena do Espaço Sesc, a comédia musical conta apenas com elementos cênicos que ajudam os atores nas mudanças de temas. A ficha técnica fala em “ambientação cênica”, que é humilde. Já os figurinos (de Antônio Medeiros e Tatiana Rodrigues) são cômicos por si só, com uma pegada trash. Cristiano Gualda de rainha de bateria e Ana caracterizada como Claudia Leitte na Copa são por si só um convite ao riso. Quanto à parte musical, assinada por Wladimir Pinheiro, ela aparece em momentos pontuais, quase sempre como deboche. Há músicas originais, mas a maioria é de paródias.

(Foto: Guga Melgar)
(Foto: Guga Melgar)

O mais interessante do espetáculo é que ele soube pincelar os fatos sociopolíticos mais importantes e apresentá-los em uma ordem surpreendente. O espectador, embora conheça a história, nunca sabe o que vem a seguir. As risadas são constantes, ora satisfeitas e alegres ora culpadas e constrangidas. Afinal, são temas árduos a todos nós. O espetáculo fala de preconceito, de posições políticas, de comportamento, e é impossível não se identificar.

A direção de Sergio Módena (de “As Mimosas da Praça Tiradentes”), com co-direção de Gustavo Wabner (assistente de “S’imbora, o Musical”), sugere que a encenação seria mais bem sucedida no palco italiano. O espetáculo por vezes escolhe “uma frente” e os atores ficam de costas ou de lado para parte da plateia, em vez de atender a todos em tempo integral. Mas isso não o compromete. Dá vontade de ver de novo, no palco italiano, em uma possível futura temporada.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

_____
SERVIÇO: qui a sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 20. 75 min. Classificação: 14 anos. De 9 de julho até 2 de agosto. Espaço Sesc – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.