Peça In Extremis mostra leitura da mão de Oscar Wilde antes da prisão

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“In Extremis”, de Neil Bartlett, é a segunda montagem da recém-fundada Cia. Limítrofes, em cartaz na cidade com os dois espetáculos do seu repertório. Este em questão dá continuidade à pesquisa do grupo com a linguagem do bufão e a estética do grotesco, iniciada em “The Pillowman – O Homem Travesseiro”. É um bom trabalho, considerando que tudo de interessante da peça se deve à encenação. O texto em si é um tanto enfadonho: a prova de que nem toda boa ideia é bem desenvolvida.

(Foto: Hemerson Celtic)

(Foto: Hemerson Celtic)

A dramaturgia retrata ficcionalmente um encontro do escritor Oscar Wilde (1854-1900) com Ms. Robinson, uma especialista em quiromancia, a leitura de mãos. O encontro realmente ocorreu, em 1985, uma semana antes de sua prisão por manter relacionamentos homossexuais em Londres, mas ninguém sabe o que aconteceu naquela consulta. Existe apenas uma menção ao encontro em um telegrama escrito por Wilde para uma amiga. Baseado neste argumento, o premiado Neil Bartlett mergulhou na obra do dramaturgo e escreveu o que poderia ter acontecido nessa consulta. Dito assim, soa bastante atraente. Mas a verdade é que o texto pouco se desenvolve, se arrasta por minutos a fio, e nem mesmo o humor refinado, com sátiras a referências pop, salva. Nada acontece, por muito tempo.

O Oscar Wilde de Bartlett é taciturno e está apreensivo com seu julgamento, em busca de conselhos. Quando fala, é para autocitarse, o que dificulta qualquer simpatia pelo personagem. É uma construção introspectiva que emperra o andamento. Cabe à Ms. Robinson o show. Expansiva e dona da cena, é interpretada com primor por Daniel Infantini (de “The Pillowman”). Ela por vezes lembra que os dois estão mortos, falando daquele dia em retrospecto, o que inquieta, mas não acrescenta nem condiciona nada na história. É um excesso de informação.

O que chama a atenção em “In Extremis” é mesmo sua montagem. A direção é de Bruno Guida (o mesmo de “The Pillowman”), que na sessão assistida também estava em cena, como stand in do Flavio Tolezani (também de “The Pillowman”) no papel de Wilde. As opções da encenação são interessantes, com o contraste das exuberâncias da maquiagem e dos figurinos barrocos (ambos de Daniel Infantini) e o intimismo do cenário (de Flavio Tolezani) e da iluminação (de Aline Santini). A luz, particularmente, dá o tom do espetáculo – obscuro e místico. O visual claramente se sobrepõe ao textual.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: ter e qua, 21h. R$ 40. 60 min. Classificação: 14 anos. Até 28 de outubro. Teatro Poeirinha – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.