Já na entrada para ver “Temporada de Verão”, o novo espetáculo da Cia. Físico de Teatro, ocorre uma separação. O recepcionista do Espaço Sesc, em Copacabana, solicita que os espectadores se dividam em duas filas por sexo: homens para um lado, mulheres para o outro. Casais são obrigados a se separarem e grupos de amigos são partidos, entre questionamentos e reclamações. As mulheres entram primeiro e se acomodam do lado direito da arena. Os homens entram em seguida e se sentam do lado esquerdo. A proposta é do diretor Renato Livera (de “Fã-Clube”) e é compreendida no decorrer da encenação.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

O espetáculo se passa em um programa de TV, com a plateia real exercendo a função cênica do auditório ficcional partido. Escrita por Maria Paula Leão, com colaboração de Sandro Pamponet e supervisão do Jô Bilac (de “Conselho de Classe”), a peça trata justamente da segregação social por gênero. Na trama, uma atleta transexual vai a um talk show e fala sobre sua impossibilidade de disputar as Olimpíadas por não ser considerada “mulher”. Apesar do tratamento hormonal, a comunidade esportiva acredita que ela poderia ter vantagens por, entre outras questões, sua estrutura óssea masculina. Aliás, um esqueleto é utilizada como objeto cênico, símbolo da neutralidade: uma estrutura sem gênero definido.

A divisão do público chama a atenção e repercute. Na estreia, um grupo de senhoras foi o primeiro a entrar na arena e especulou o intuito da segmentação. A sinopse – que fala sobre a entrevista de uma atleta para um programa de TV internacional, que escracha um segredo de sua vida pessoal sem seu consentimento prévio – não dava pistas. O público em geral exibia uma cara de interrogação. Algumas pessoas estavam extremamente resistentes. “Isso é bom! Essa resistência é boa! Faz parte. A gente resiste na vida. Temos milhões de resistências. O teatro está aí para refletir isso”, o diretor disse ao Teatro em Cena. “O que custa ficar 1h15 longe do namorado ou da namorada para pensar?”.

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O objetivo dele é fazer com que os espectadores experimentem uma participação ativa na peça. Dividir a plateia é uma maneira de fazer o público pensar e sentir o desconforto do personagem transgênero. “É para estimular esse pensamento no espectador. A gente trata de uma questão muito mais ampla de gênero, e colocou isso à prova para a plateia. Essa divisão já instiga o espectador a perguntar ‘porque eu tô aqui?’”, explica Livera.

A peça, que só traz atrizes no elenco (Adassa Martins, Camila Gama e Letícia Cannavale), ficará em cartaz até o dia 29, com sessões de quinta a sábado às 20h30 e domingo às 19h. Os ingressos custam R$ 20 e R$ 5 para comerciários. A classificação etária é de 15 anos.