Um dos textos mais montados do mundo, “Hamlet”, de William Shakespeare (1564-1616), tem seus personagens e seus cenários bem definidos. Na história, o rei da Dinamarca é assassinado pelo irmão, Cláudio, que toma o trono e se casa com a rainha, Gertrudes. Cabe ao príncipe, Hamlet, vingar a morte do pai – a pedido do mesmo, que aparece para ele na forma de um fantasma. A tragédia é clássica e, quem nunca assistiu à peça, acaba tendo contato com ela por meio de adaptações audiovisuais: são 200 projetos listados no Internet Movie Database (IMDB), entre filmes, telefilmes, séries e episódios. Contar a história de uma maneira nova, então, é uma missão difícil, e a Cia. Completa Mente Solta comprou esse desafio. O grupo está com “Trans-Hamlet Formation”, espetáculo que será apresentado no dia 20 de abril às 20h30 no Midrash Centro Cultural, no Leblon, em reconhecimento ao 400º aniversário de morte de Shakespeare.

"Trans-Hamlet Formation" (Foto: Divulgação)
“Trans-Hamlet Formation” (Foto: Divulgação)

Diretor por trás da montagem, Marcio Januário faz lembrar o manifesto antropofágico de Oswald de Andrade (1890-1952), ingerindo “Hamlet” e expelindo sua releitura abrasileirada. No “Trans-Hamlet Formation”, a história não é mais ambientada na Dinamarca do século XVI e sim em uma favela carioca do século XXI. Cada personagem traz um simbolismo metafórico. Gertrudes representa a América Latina; Claudio, a corrupção e o narcotráfico; o rei assassinado é o Brasil; e Hamlet, os brasileiros “brincando de loucos para desmascarar a causa de tanta violência, traições e morte”, como destaca o encenador. O deslocamento da trama possibilita uma analogia com o panorama sociopolítico latino-americano, tocando em questões como guerras entre facções rivais e violência contra inocentes.

– Acreditamos que a tragédia de Hamlet continua atual. Na nossa concepção, ainda somos Hamlets brincando de loucos diante de uma América Latina exposta aos males do narcotráfico e das crises políticas que superam os absurdos de qualquer ficção. – o diretor diz em entrevista ao Teatro em Cena – A peça termina com um banho de sangue e a nossa montagem é um manifesto pela vida. Nós recusamos esta sina. Queremos a vida de forma digna e plena. É um absurdo viver em um país onde jovens negros e homossexuais são assassinados da forma que estamos assistindo passivamente. Como artistas e formadores de opinião não podemos nos calar. A arte pode ser entretenimento, mas também pode e deve ser uma ferramenta potente no questionamento e na busca por soluções possíveis e urgentes.

No ano passado, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou a violência contra jovens negros e pobres no Brasil confirmou com números o que muitos já denunciavam: um genocídio simbólico. Entre 2008 e 2011, houve uma média de 141 homicídios por dia no Brasil, de acordo com dados do Sistema de Informação de Mortalidade do Ministério da Saúde. Em 2011, dos 52 mil mortos, 53,3% eram jovens e desses, 71,44% eram negros.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

A Cia. Completa Mente Solta, que existe desde 2006, trabalha com jovens estudantes e começou com um projeto de arte-educação do Colégio Estadual André Maurois, no Leblon, próximo às favelas Parque da Cidade, Vidigal e Rocinha. Tratar de questões intrínsecas a essa realidade é uma característica do grupo teatral, que já montou, por exemplo “Shakesfunk”, com os personagens do dramaturgo apresentados em inglês, português e “favelês”, como diz Marcio Januário.

– Existe um idioma falado nas favelas e talvez aproximar e traduzir esses idiomas e dialetos seja o nosso maior desafio como artistas hoje. – pondera – “Hamlet” fala de loucura, traição, morte, incesto e é impossível tocar nesses temas sem ousadia. Hoje é normal vermos atores, cantores e bailarinos com registro profissional, mas que não são artistas, são estetas. Shakespeare enfrentou críticas, dilemas profissionais, pessoais e políticos e ainda assim construiu uma obra que dialoga até hoje com todas as classes, sem perder o poder crítico e transformador.

_____
SERVIÇO: qua, 20h30. R$ 30. 60 min. Classificação: 16 anos. Dia 20 de abril. Midrash Centro Cultural – Rua General Venâncio Flores, 184 – Leblon. Tel: 2239-1800.