Ponto de retorno – Por Felipe Frazão

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(Foto: Moises Almeida)

(Foto: Moises Almeida)

Julho de 2015 é o mês em que eu faço dez anos de teatro. E sabe o que isso significa?

Nada.

Nada mesmo.

Não é demagogia, não significa NA-DA.

Nada e tudo pra ser exato.

Em termos práticos não significa nada porque, de fato, não significa nada. Eu aprendi isso com o tempo: não ver atuação sob uma perspectiva carreirista (primo-irmão do ‘quem gosta de passado é museu’, sabe?).

Já em termos de experiência, que está introjetada em minha musculatura e memória, significa tudo, é verdade. Gosto de pesar assim, de sentir assim, como se tudo o que fizéssemos fosse quase um pretexto pra estarmos juntos e compartilharmos vários objetos de consciência.

Quase todo mundo já ouviu da boca de um ator que quando se começa um trabalho novo é como se você estivesse começando do zero, literalmente. É claro que, ao longo do tempo, como vamos nos conhecendo cada vez mais, as escolhas também se aprimoram. Isso em todos os sentidos. O repertório aumenta também, naturalmente. Mas os obstáculos são outros, as dificuldades mudam de ordem e parecem se intensificar cada vez mais. Como cada trabalho é um novo universo a ser explorado, as especificidades são outras e já não há nada de genérico e isso não muda (parente do ‘treino é treino, jogo é jogo’).

Das coisas que deveriam também ser invariáveis na profissão, a vontade de se contar uma história ou a razão primeira que ocasionou a escolha ou condenação de um intérprete ser um intérprete talvez esteja em primeiro lugar. Conheço poucos casos (ou nenhum pra ser exato) de gente que foi obrigada por alguém a fazer teatro e que continua fazendo por um bom tempo. Não quero associar o ofício a algum chamado sobrenatural ou dom divinamente superior (não tem nada a ver com isso), mas a profissão-teatro é feita geralmente de gente que quis estar ali, ou de gente que não teve outra opção, não tinha escolha e não podia viver sem. As que não se encaixam em nenhuma dessas alternativas passam pelo teatro, não permanecem. Isso faz do teatro quase que uma seita de gente que tem em comum alguma coisa. Um desejo, um gesto, um grito ou um segredo. A gente compartilha energia em busca de formas diferentes de se contar a mesma história. Pra depois escolher todas elas ou nenhuma. E pleitear, publicizar um pensamento que se torna mais interessante ainda se vier em forma de questão (dita ou não dita), algumas imagens e muitas sensações distintas, euforia encubada que se desvirgina, grito rompido pela vida, uma desarmonia aqui e ali, outras ruas, outros caminhos.

Hoje de tarde assisti a um ensaio do espetáculo O EDREDOM, do meu amigo Tauã Delmiro. Provavelmente quando alguém estiver lendo esse texto, a peça já tenha acabado por conta da curta temporada. O EDREDOM me fez lembrar disso. Que bom! Lembrar que pra fazer acontecer de verdade não precisa de muito mais além de empenho, disciplina, um lugar, um ator, uma história e alguém vendo. Teatro da melhor qualidade! Que não tem interesse de outro cunho que não o de simplesmente trocar com o público sobre algo ou alguém, real ou fictício, mas que esteja inquieto dentro da gente, querendo muito sair, como se fosse um bebê que ficou dez meses na barriga e aí não tem mais como fugir. Ele tem que vir à tona!

Quero poder lembrar disso sempre. De transformar as dificuldades do percurso em vida através do teatro e de me esforçar para nunca me esquecer daquela sensação que tive depois de assistir a uma peça e que me fez pedir aos meus pais uma matrícula no primeiro curso de teatro há dez anos atrás.

Felipe Frazão é ator.