Marquinhos não se encaixa no que desejam seus pais, professores e amigos. O modo do menino falar, andar e se portar é motivo de chacotas no colégio e na rua onde mora. É bullying, mas ainda não inventaram esse nome. Aninha, por sua vez, tem duas irmãs mais velhas que são como ídolos. Ela quer ser igual a elas, mas não consegue. Tentam torná-la uma bonequinha, uma mocinha, mas ela está longe disso. Marquinhos e Aninha não correspondem à heteronormatividade. Histórias como essas permeiam “Prática de Montação”, peça de universitários da UNIRIO que estreia nesta quinta (10/9), na Sala Paschoal Carlos Magno, no campus da universidade na Urca, com entrada franca.

(Foto: Divulgação)
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Marquinhos e Aninha, passado. Marcos Pereira e Ana Kailani, presente. Os dois são intérpretes e personagens desse espetáculo documental, criado a partir das histórias pessoais do próprio elenco sobre o entendimento de sua sexualidade, seu gênero e sua identidade. Oito atores participaram de um processo colaborativo com o diretor Diêgo Deleon, também universitário, a fim de criarem uma narrativa com memórias e questões sobre homossexualidade. A partir de perguntas simples do diretor, como “a melhor lembrança da infância” e “o que desejo mudar em mim”, eles apresentavam performances como respostas não literais e improvisavam a partir de histórias pessoais.

– Eu compartilhei coisas que nunca havia contado para ninguém, talvez nem para mim mesma. Eu revirei meu baú, me senti autora das minhas memórias. Em um determinado ponto, me dei conta que eu não estava falando daquela menina do passado, mas de hoje, de como eu me vejo, de como me emancipo dos outros e busco a mim mesma. Eu me descobri em plena transformação. Eu me autorizei mudar. Depois disso tudo, o que resta é sentir saudade de ensaiar só de calcinha. – Ana Kailani conta ao Teatro em Cena.

O objetivo de Diêgo Deleon é trabalhar com temas político-sociais e com o documental no teatro. A ideia para o espetáculo veio de um encontro de universitários para discussão de gênero e sexualidade, realizado no ano passado.

– Fiquei muito encantado de como suas pesquisas acadêmicas tangenciavam suas lutas. Isso era algo que ainda não tinha feito, pelo menos de maneira tão explícita, com o teatro. Não sabia muito bem como fazer, e ainda não sei, mas fomos achando pistas de que é possível. – conta o diretor. – A universidade é supostamente o tempo de se fazer experiências. Juntar uma substância aqui, outra ali e torcer para não explodir. É minha terceira peça, a primeira que faço completamente dentro da estrutura da universidade e certamente a que tem mais chance de dar errado. Acho que a universidade permite isso.

Confira um vídeo do processo de criação da peça:

Os atores ressaltam a importância de apresentar um trabalho sobre esse tema no ambiente acadêmico. Marcos Pereira diz que ele próprio confrontou preconceitos que nem sabia que tinha durante o processo criativo do espetáculo, quando fizeram seminários sobre sexualidade, identidade e gênero. Da mesma forma, a peça poderá fazer os espectadores reverem seus pensamentos sobre as questões abordadas.

– É vital o que estamos fazendo. É extremamente necessário dizermos isso. Pode soar dramático demais, mas gosto de espetáculos que o caso é de vida ou morte. Quando você assiste e fala “é…realmente ele precisava dizer aquilo”. Acho que essa peça, mais que o conteúdo, mais que o tema, ela é isso. Acho também muito importante o tema da sexualidade estar presente na universidade. Já tem uma galera movimentando isso. Existe uma estética LGBT? Como falar sobre gênero? Acho que a “Prática de Montação” é uma contribuição para a universidade e para a vida de uma busca estética, cênica e teatral para esses temas que nos inquietam. – conclui Ana.

(Foto: Divulgação)
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SERVIÇO: qui a sáb, 20h. Entrada franca: senhas distribuídas 30 min. antes. 60 min. Classificação: 18 anos. Até 19 de setembro. Sala Paschoal Carlos Magno – UNIRIO – Avenida Pasteur, 436 – Urca. Tel: 2542-2717.