(Foto: Globo/Renato Rocha Miranda)
(Foto: Globo/Renato Rocha Miranda)

“Vamos conversar, finalmente”. Quem fala é o ator Ney Latorraca, no camarim do Teatro Sesc Ginástico, no Centro do Rio de Janeiro, em uma sexta-feira. Foram sete dias de adiamentos e remarcações para que a entrevista com o Teatro em Cena finalmente acontecesse – e de presencial se tornou telefônica. “Eu me atrapalhei todo. Vim de uma gripe nesse final de semana, sabe? Eu fiquei meio cansado… Comecei a melhorar ontem”. Eram ainda 16h30, e ele havia chegado ao teatro meia hora antes. Bem cedo para quem só subiria ao palco às 19h para a apresentação de “Entredentes”, espetáculo conceitual de Gerald Thomas, que está na reta final de sua temporada carioca, com ingressos populares. “Certa vez, uma mulher falou para o marido no fim do espetáculo: ‘não entendi nada’. Aí ele, um senhor de cabeça branca, disse: ‘vai pra casa, sonha e nos seus sonhos você vai ter entendimento da peça’”, lembra o ator, que está com 50 anos de carreira. “Não é um espetáculo palatável, fácil. Minha função como ator é trazer alegria, fazer pensar, mexer com a plateia. Eu prefiro agradar cinco pessoas inteligentes a 500 idiotas”.

A peça marca o retorno de Ney ao teatro, após a longa internação hospitalar no fim de 2012, amplamente noticiada e acompanhada pelo público. “Eu não sabia que era tão querido”, afirma o ator santista, que planeja um retorno à Casa de Saúde São José, no Humaitá, para convidar médicos e enfermeiros a assistirem ao espetáculo. “Eles são ótimos, carinhosos, pacientes… Nossa senhora, a paciência deles! Eu cheguei lá e peguei tudo, né? Fui operar uma coisa e peguei infecção geral. Quase morri. Foi uma loucura”. Ele realmente vê a experiência como um renascimento. Com a obrigação de beber bastante líquido, fazer exercícios e tomar remédios, ele acredita que descobriu o lado bom da vida. “As coisas boas são as mais simples do cotidiano, sabe? Levantar, lavar o rosto, escovar os dentes, tomar banho com sua toalha, andar na Lagoa (onde mora), bater papo com o cara do coco… Aí que está o grande barato”, disserta. “As outras coisas são tudo uma bobagem. São frescuras”.

O discurso não é da boca pra fora. Na primeira vez que o site tentou contato com Ney naquele dia, às 14h30, ele estava de saída para pegar o metrô e ir ao teatro. “Isso é uma maravilha pra mim. Não ter motorista, tapetinho vermelho, eu de óculos escuros falando ‘Johnny, me encaminhe até o Centro’. Ah, o que é isso, gente!? Eu sou ator brasileiro!”. Da estação Cantagalo, na qual ele entra, até a Cinelândia, a mais próxima do teatro, são 19 minutos em média. Tempo suficiente para que ele seja assediado até arrancar os cabelos, não? Não. Ney diz que as pessoas ficam em dúvida se realmente é ele. “A vida não é um tapete vermelho. As pessoas ficam só olhando. Muita gente diz que pareço ‘com ele’. Fica um clima. É muito engraçado. Mas o metrô é uma coisa prática”. O carro com motorista ele reserva para ocasiões importantes, como o Emmy Internacional. No dia 24 de novembro, irá a Nova York, como um dos representantes de “Alexandre e Outros Heróis”, especial de fim de ano da TV Globo, indicado na categoria Telefilme/Minissérie.

Em cena de "Entredentes", com Edi Botelho e Maria de Lima (Foto: Guga Melgar)
Em cena de “Entredentes”, com Edi Botelho e Maria de Lima (Foto: Guga Melgar)

Junto com “Entredentes” e o filme “Introdução à Música do Sangue” (ainda inédito), o especial compõe uma trinca de trabalhos previstos para Ney após a alta hospitalar. “Eu queria fazer essas três coisas quando saí do hospital. Estou concluindo. São metas”. Para o ano que vem, ele já está reservado para a próxima novela das 19h da TV Globo, com o nome provisório de “Lady Marizete”. “Querem botar o velhinho para trabalhar. Os capítulos estão lá em casa. Não li ainda. Vamos começar a gravar só no ano que vem. [A direção] É do Wolf Maya”. Essa é uma característica do ator: citar os nomes dos profissionais envolvidos em cada trabalho – atores, autores ou diretores. “Eu preciso estar cercado de pessoas inteligentes, para eu poder sempre aprender, entendeu? Vai ser assim até o fim. A gente morre sem saber nada. Mas eu gosto”, explica. Gerald Thomas é uma dessas pessoas inteligentes. Os dois já haviam trabalhado juntos nos anos 1990 e retomaram a parceria com esse espetáculo novo, escrito especialmente para Ney, com várias referências à sua vida pessoal. Há até um beijo em Edi Botelho, seu companheiro na vida real. O texto é cheio de recortes e não é de fácil compreensão, mas era justamente o que o ator buscava. “Não é aquela peça que tem um sofá e uma lareira, aí alguém fala ‘Johnny, você quer um drinque?’. ‘Não, por que você fez isso com Mary?’. ‘Mary não estava lá, então ligue para Carrie’. Sabe? Eu não aguento mais isso! Eu quero errar, também. Errar e acertar. Por isso que meus caminhos são diferentes, todos”.

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Edi Botelho e Ney Latorraca: parceiros em cena e na vida real (Foto: Alisson Louback)
Edi Botelho e Ney Latorraca: parceiros em cena e na vida real (Foto: Alisson Louback)