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(Foto: Bia Herbstrith)
(Foto: Bia Herbstrith)

A montagem universitária da UNIRIO para o musical da Broadway “The Book of Mormon” estreou em 2013 na Sala Paschoal Carlos Magno, no próprio campus na Urca, e o resto é uma história amplamente divulgada. Depois daquele fenômeno de público e crítica, com várias temporadas pela cidade, era inevitável: o professor e diretor Rubens Lima Jr. havia aumentado a expectativa por sua próxima montagem. Ele nunca escondeu que o espetáculo escolhido era “O Jovem Frankenstein” (que chegou a ser adiado, por causa do sucesso dos mórmons), mas pairava no ar uma nuvem de suspense: será que ele conseguiria fazer algo tão bom quanto? A resposta é sim. Rubens continua elevando o nível e apresentando um trabalho cada vez de melhor qualidade. Ninguém sai da UNIRIO decepcionado. Os mórmons eram legais demais, mas a turma da Transilvânia também é.

Com menos alvoroço dessa vez, “O Jovem Frankenstein” mostra a que veio desde a fila do lado de fora do teatro. Por ser um trabalho acadêmico, é proibida a venda de ingressos (eles pedem apenas uma contribuição voluntária no fim da sessão, no esquema de chapéu na mão) e a produção distribui entradas gratuitas em ordem de chegada. Os convites são personalizados e já encantam por parecerem figurinhas. O programa do espetáculo, com todas as informações necessárias e um pôster animado, também causa uma boa impressão. Não tem nada de amador ali, em nenhum detalhe. É tudo muito profissional. O projeto de pesquisa em teatro musicado do Rubens Lima Jr. tem patrocínio da Fundação Cesgranrio, o que explica o investimento nítido.

(Foto: Bia Herbstrith)
(Foto: Bia Herbstrith)

Cenários (vários) e figurinos (para muitos atores e para muitas trocas) são infinitamente superiores aos de “The Book of Mormon”. Na verdade, é até covardia comparar. A cenógrafa Cris de Lamare e o figurinista João de Freitas Henriques apresentam um trabalho de primeira, que poderia estar em qualquer espetáculo profissional com completa dignidade. A iluminação de Anderson Ratto, que também cuidou de “The Book of Mormon”, é mais elaborada dessa vez. Então, tecnicamente e esteticamente, “O Jovem Frankenstein” faz “The Book of Mormon” parecer brincadeira de criança (e obviamente era um musical muito bom).

Para quem não conhece a história, ela é inspirada no filme homônimo de 1974, que é uma continuação de “Frankenstein”. O médico anatomista Frederick é o último membro vivo da família Frankenstein e vive normalmente em Nova York, onde é noivo de uma mulher rica e leciona em uma faculdade. Ele só vai parar na Transilvânia quando seu avô morre e ele é convocado para herdar o castelo. Uma vez lá, é incitado pelo servo Igor, pela assistente Inga e pela governanta Frau Blucher a fazer jus ao legado do avô, ler seu livro de anotações e dar continuidade às suas experiências, trazendo um cadáver de volta à vida. O texto é de Thomas Meehan e Mel Brooks, que também assina as letras e músicas. Na montagem da UNIRIO, a versão brasileira é de Alexandre Amorim. Se há algo que “O Jovem Frankenstein” deixa a dever a “The Book of Mormon” é na trama, mais boba e prolixa, mas isso é culpa dos americanos…

(Foto: Bia Herbstrith)
(Foto: Bia Herbstrith)

O elenco inteiro está ótimo, e os atores principais não poderiam estar melhores. Luiz Gofman (Frederick), Bruno Nunes (Igor), Carol Pita (Inga), Ester Dias (Frau Blucher), Gabriel Demartine (a “criatura”) e Flora Menezes (Elizabeth, a noiva) estão prontos para musicais profissionais. Bruno é incrivelmente engraçado e carismático em suas entradas, Carol tem uma voz linda, e Luis Gofman segura vários solos difíceis, além de conduzir com segurança toda a encenação. Verdade seja dita: as canções e as coreografias de “O Jovem Frankenstein” também são mais complexas que as “The Book of Mormon”, que eram mais chiclete e divertidas. A impressão é que os atores são mais exigidos em cena dessa forma. Ponto para a direção musical de Marcelo Farias e para as coreografias de Adriana Salomão, que proporciona vários números muito bons. O único porém – um grande porém, na verdade – é que o “exercício cênico” é apresentado com base instrumental, sem banda ao vivo (embora uma lista de músicos esteja listada no programa).

É difícil entender porque “O Jovem Frankenstein” não está dando tanto o que falar quanto a montagem anterior, porque é um musical ótimo e tecnicamente superior. No fim das sessões, o elenco garante que não há planos para temporadas em outros locais por enquanto – o que é uma pena se for verdade. É um trabalho que merece uma estrada mais longa para que mais pessoas possam prestigiá-lo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a sab, 21h; dom, 20h; seg, 21h. Entrada franca (distribuição de senhas uma hora antes). Até 5 de abril. Sala Paschoal Carlos Magno – UNIRIO – Avenida Pasteur, 436 – Urca. Tel: 2542-2717.