Quando entendi Ney – Por Hugo Bonemer

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(Foto: Faya / Divulgação)

(Foto: Faya / Divulgação)

Gosto de pensar que nunca nos comunicamos. E não é por falta de tentativas. Desenvolvemos a fala, músculos faciais, atitudes corporais, soltamos cheiros, nossos olhos contam histórias e – numa frequência mais sutil – conseguimos trocar informações ainda pouco rebuscadas e na maioria das vezes, involuntárias. Ainda assim, não nos comunicamos.

Lembro-me quando vi Ney Matogrosso pela primeira vez. Achava tudo muito ruim. Minha cabeça tão cheia de sujeira social era incapaz de perceber sutilezas. No curso de artes, em Bremen, questionei o porquê de alguém querer ter um Francis Bacon na parede da sala. “É isso que eu preciso arrancar de você, Hugo”: Foi a resposta da Frau Harder, que apesar do nome, de dura, não tinha nada. Era uma montanha de doçura.

Foi na Alemanha que, pela primeira vez, vi uma mulher com pelos nas axilas. Vi uma. Vi duas. Depois vi um monte. Usavam regatas, não escondiam! De repente um mundo de mulheres cabeludas se abriu diante da minha percepção. Elas estavam ali o tempo todo e eu não conseguia enxergar. Todas casadas e com filhos. Era tão normal quanto casar e deixar crescer a barriga. Eu não era capaz de aceitar: Como não se mostrar sexy o tempo todo? Normal.

É tão gostoso pensar que anormal é só um passeio fora da norma. Falo dessa que nos guia e não reprime. O sujeito sai da norma e volta com a mesma liberdade da qual fez uso quando saiu, trazendo novas que colorem toda a experiência.

Se não vemos as mesmas cores, talvez nomeá-las não faça tanto sentido. Somos todos, e ainda sim não nos comunicamos. Sinto que o Teatro não tem a pretensão de comunicar, mesmo comunicando. Ele sabe que a vida de cada um é uma experiência tão particular que duas pessoas, olhando um único vestido, não veem uma mesma cor. Se dois veem azul, não se sabe se um deles vê outra cor, e chama de azul. Acho mesmo que não vê. Trata-se de encontrar a beleza nas coisas, dar forma ao caos e tornar o que é ordinário em extraordinário.

Vejo um movimento artístico forte prezando cada vez mais pela liberdade do espectador em tirar as próprias conclusões em tudo. Sou adepto, mas tenho ressalvas quando tudo fica tão caótico na execução, que transforma a busca por níveis mais profundos em simples falta de comunicação. Nunca seremos capazes de controlar esse universo tão particular que reside no espectador, então, não é soltando as rédeas que damos liberdade. É preciso existir um trilho. Fico animado em pensar que há muito para se descobrir na experiência teatral, que a comunicação tem tantas possibilidades de melhora, que nossos netos serão melhores artistas que nós, que Ney Matogrosso ainda faz shows com a mesma graça de 20 anos atrás e que há tantas obras sendo feitas sem a pretensão de decorar a parede da minha sala, ainda que, hoje, eu as queira lá.

Hugo Bonemer é ator de teatro, cinema e TV.