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O dramaturgo Bosco Brasil (de “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”) e o diretor Diego Molina (de “War”) comemoram dez anos de uma parceria pouco conhecida com “Radiofonias Brasileiras”, um musical teatral inédito. A peça se passa na Rádio Nacional, durante a ditadura militar, mais precisamente entre 1963 e 1973, segundo o material de divulgação, e acompanha o fictício autor de radionovelas Amílcar Maranhão. Um tremendo sucesso antes do crescimento das novelas na TV e do golpe militar, ele terminou a carreira como locutor de um programa de rádio que ninguém ouvia, transmitido ao vivo de madrugada. Morto, é recebido pelo Diabo em vez de Deus e repassa sua trajetória em busca de auto-avaliação.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Obviamente, a primeira pergunta que o espectador se faz é: o que o levou ao encontro do Diabo, às portas do inferno? Alguma ele aprontou. Mas a resposta demora a vir. São duas horas de espetáculo, e o esclarecimento ó aparece quando você nem lembra mais de desejá-lo. O texto de Bosco Brasil se perde inúmeras vezes ao longo do caminho. O jogo entre Amílcar e o Diabo, que conduz a trama, passa a impressão de desnorteado a maior parte do tempo. Muitos subtemas são tratados, além do impacto da ditadura militar nos bastidores da Rádio Nacional, e alguns como meras distrações. São personagens secundários que ganham e perdem importância repentinamente, e espíritos que circulam pelos corredores da rádio bizarramente. Excessos.

A direção de Molina neste trabalho, em geral, é equivocada e torna a dramaturgia menos atrativa. Há cenas que deveriam ser engraçadas, deveriam ser reveladoras, deveriam ser tensas, e acontecem sem passar qualquer emoção. Há má condução do texto, que já é confuso.

As músicas – pinceladas daquela época, mas não exatamente populares – não contribuem tampouco. Os números musicais são todos desnecessários, incluindo o último, um solo do Diabo, interpretado por Maíra Lana (de “O Mágico de Oz”), única a arrancar aplausos. Impressiona pelo potencial vocal e pelos virtuosismos da atriz, mas não acrescenta à história. A direção musical de Tato Taborda (de “A Negra Felicidade”) faz o que pode, incluindo um bom trabalho com os músicos (Banda Hétera), mas não esconde que ser um musical só torna “Radiofonias Brasileiras” mais conturbado.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Amílcar Maranhão é interpretado por Reinaldo Gonzaga (de “Conduzindo Miss Daisy”), satisfatório no papel. O elenco é completado por mais sete atores, entre os quais se destacam Luciana Bollina (de “As Aventuras do Menino Iogue”) e Alessandro Brandão (de “Elis, a Musical”) pela parte musical. A maioria interpreta mais de um personagem, o que confunde, pois os traços não são bem demarcados e os figurinos (de Colmar Diniz) não contribuem para diferenciação.

O cenário é de Aurora dos Campos e conta com uma estrutura fixa reproduzindo o que seria um estúdio da Rádio Nacional. Há uma porta, que mais atrapalha do que ajuda na movimentação cênica, e por vezes é desrespeitada. A direção também explora outros ambientes da sala, como a parte superior e a entrada dos espectadores, deixando o público em estado constante de atenção para as possibilidades de entradas dos personagens. Depois de um tempo, cansa tantas viradas de pescoço.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.