Rafael Canedo (de “Porcos com Asas”) está na carreira de ator há oito anos. Já até ganhou prêmios. Mas “O Estranho Caso do Cachorro Morto” é sua maior oportunidade até hoje. No espetáculo, ele interpreta o protagonista Christopher, um adolescente de 15 anos, que sofre da Síndrome de Ásperger, uma espécie de autismo, e se vê no meio de um caso policial ao ser acusado de ter matado o cachorro da vizinha. É o tipo de papel que ou derruba ou levanta uma carreira. Felizmente, assiste-se a um desempenho elogiável. Aos 26 anos de idade, Rafael Canedo é um nome para se ficar atento.

(Foto: Cezar Moares)
(Foto: Cezar Moares)

O ator é o único que permanece em cena do primeiro ao último minuto, conduzindo a história ininterruptamente. E não falha. A maneira como caminha, respira pausadamente, mexe com os dedos enquanto fala e é avesso ao toque é impressionantemente crível e envolvente. Poderia ser caricato, mas passa longe disso. É delicado e sensível como tem que ser. O autismo não zera o personagem, e é apenas uma parte dele. Christopher tem uma inteligência matemática fora do comum, um senso de justiça aguçado e ainda escreve um livro – um livro sobre sua história.

A sinopse é basicamente essa: menino com síndrome de Ásperger é acusado de matar o cachorro da vizinha, e mergulha em uma investigação por conta própria para descobrir quem é o verdadeiro assassino – a contragosto do pai (Thelmo Fernandes, de “A Arte da Comédia”). A trama se passa em uma cidadezinha da Inglaterra, e sua montagem no West End rendeu sete troféus no Laurence Olivier Awards. O texto é do Simon Stephens (de “On the Shore of The Wide World”), adaptado do livro homônimo do Mark Haddon, que também foi um best-seller e vai virar filme.

Rafael Canedo e Sabrina Korgut são Christopher e Siobhan. (Foto: Cezar Moraes)
Rafael Canedo e Sabrina Korgut são Christopher e Siobhan. (Foto: Cezar Moraes)

Na montagem brasileira, a direção é do Moacyr Goes (de “K. – Uma Leitura d’o Castelo”), que faz um trabalho impecável quanto à utilização do cenário e a encenação dos atores. Chama a atenção particularmente os jogos de cena de Christopher e sua professora Siobhan (Sabrina Korgut, de “Para Semper, ABBA”), que lê o livro autobiográfico que ele escreve e, por vezes, assume sua voz, quase dividindo o personagem com Rafael Canedo. O trabalho feito com relação à leitura das cartas da mãe (Silvia Buarque, de “Cozinha e Dependências + Um Dia Como os Outros”), que é um ponto de virada importante na história, também é visualmente bonito. Todo o elenco principal está entrosado e afiado.

Quanto ao cenário, assinado por Ana Santanna e Monica Martins, ele é conceitual e usual. São formas geométricas, cubos coloridos principalmente, grafados com números primos. Além de atraentes, refletem a personalidade do protagonista, e não são meros elementos decorativos. Os personagens interagem com eles em cenas importantes. Há ainda o apoio de telões em momentos pontuais. Nada é à toa, e o mesmo vale para os figurinos de Joana Mendonça e Luiza Oliveira.

Tudo isso fica mais claro com essa prévia disponibilizada no Youtube:

“O Estranho Caso do Cachorro Morto” fica em cartaz no Teatro do Leblon até o dia 29 de junho, com sessões quintas, sextas e sábados às 21h, e domingos às 20h. Os ingressos custam R$ 70 nas quintas, R$ 80 nas sextas e nos domingos, e R$ 90 nos sábados.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.