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Inspirado na vida e na obra dos dramaturgos Antonio Bivar e José Vicente (1945-2007), o espetáculo “Próxima Parada” fala sobre encontros, partidas, despedidas e reencontros. Personagens vêm e vão, somem, reaparecem (ou não), se misturam a fatos reais e fictícios, ao que é e ao que poderia ser. É uma dramaturgia inédita de Felippe Vaz e Cesar Augusto (da Cia. dos Atores), que também assina a direção, resultado de um processo colaborativo de pesquisa com o elenco de dez atores. Não é uma peça fácil, mas é boa de se ver. Com alguma reflexão mínima, tudo se encaixa e parece quase óbvio, mas tem que pensar um cadinho.

(Foto: Divulgação)
André Rosa, Breno Motta, Dani Cavanellas, Danilo Rosa, Felipe Frazão, Flavia Coutinho, Haroldo Costa Ferrari, Rômulo Chindelar, Sarah Lessa e Victor Albuquerque compõe o elenco(Foto: Divulgação)

De imediato, há a quebra da quarta parede. Dois atores saem da sala para receber os espectadores no corredor, perguntando quem é de São Paulo e quem já foi a Portugal. As perguntas causam estranhamento, que é acentuado na entrada na sala do teatro, quando se descobre o resto do elenco espalhado pelas cadeiras da plateia (duas arquibancadas que entremeiam o “palco”). Percebe-se então que não há limites para o espaço cênico e que, como a dramaturgia, realidade e ficção se misturam. Boa sacada de Cesar Augusto. Quando o público se dá conta, o espetáculo já começou e está imerso nele.

Fragmentado, o texto inicia e termina histórias em rompantes, com os atores vestindo-se e despindo-se no centro do palco, com roupas e acessórios espalhados pelo espaço. Cenário, não há, e as rubricas localizando tempo e espaço são dadas pelos atores no início de cada conto. A iluminação (de Genilson Barbosa) é básica, com um par de bons momentos. O trabalho artístico de maior qualidade está na projeção de vídeos, criados por Elisa Mendes e João Marcelo Iglesias, proporcionando cenas esteticamente bem acabadas.

Na primeira parte do espetáculo, quem tenta estabelecer conexões entre as pequenas tramas se perde. O melhor é se deixar levar. Tendo em mente a inspiração nas obras e na vida dos autores, depois fica fácil distinguir o que são fragmentos de peças ou de dados biográficos, mesmo que se desconheça ambos. Tudo está em prol da captação da essência desses dois e de como se cruzaram na vida. Tanto Bivar quanto Vicente foram ícones do teatro dos anos 1970, e viveram um autoexílio durante a ditadura militar, entrando em contato com a contracultura internacional e os movimentos de liberdade sexual.

Os atores do elenco estão bem nivelados. Por vezes, se dirigem diretamente à plateia, encarando-os olho no olho, com uma proximidade que pode ser incômoda. Eles entram e saem de cena, e de personagens, de maneira muito simples e há momentos em que não se sabe quem fala ou a quem se responde: ator ou personagem? Ao público, resta desprender-se dessas amarras em prol da experiência, que proporciona boas risadas e bastante conteúdo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: sex e sáb, 19h. dom, 18h. R$ 20 (ou R$ 5 para associados Sesc). Classificação: 16 anos. Até 22 de fevereiro. Espaço Sesc – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.