O circo está chegando! Vai ter palhaço, vai ter equilibrista, vai ter mulher barbada e até Chico Buarque. Chico Buarque? Isso mesmo. “O Grande Circo Místico”, espetáculo musical que estreia em 15 dias no Theatro Net Rio, em Copacabana, é baseado na trilha sonora composta por ele e Edu Lobo, lançada em 1983, no que é considerado por muitos o melhor disco de música brasileira de todos os tempos. Com direção do João Fonseca, que vem do sucesso de “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”, a peça é aguardada com expectativa pelos fãs do cantor, pelo público do teatro musical e, por que não, pelos amantes de circo. Há ainda os que se encaixam nesses três nichos – como o ator Reiner Tenente, que está no elenco, no papel do Clown (o palhaço). “Como ator, sempre paquerei o circo, mas tinha que escolher”, conta ao Teatro em Cena. “O ator de musical tem que dançar, cantar e interpretar. Não dá para ainda dizer ‘vou fazer circo’. Esse trabalho me deu a oportunidade de fazer circo para um espetáculo, e aí fui gastar esse desejo que tenho desde criança”.

Gabriel Stauffer, Letícia Colin, Fernando Eiras, Ana Baird e Isabel Lobo, com Reiner Tenente em destaque na frente. (Foto: Leo Aversa).
Gabriel Stauffer, Letícia Colin, Fernando Eiras, Ana Baird e Isabel Lobo, com Reiner Tenente em destaque na frente. (Foto: Leo Aversa).

A trama, escrita por Newton Moreno (de “Maria do Caritó”) e Alessandro Toller (de “Západ – A Tragédia do Poder”), acompanha um circo específico – o da família Knieps. O núcleo principal é formado pelo administrador (Fernando Eiras, de “In On It”), a bailarina equilibrista Beatriz (Letícia Colin, de “Como Vencer na Vida Sem Fazer Força”), a mulher barbada (Ana Baird, de “Meu Sangue Ferve Por Você”) e o Clown. Há ainda a figura externa do Frederico (Gabriel Stauffer, de “Uma Comédia Dentro de Uma Comédia”), jovem de família rica, noivo da vilã Charlote (Isabel Lobo, de “Deixa Que Eu Te Ame”). Ele se apaixona por Beatriz e, enquanto a guerra estoura e o circo luta contra sua extinção, os dois vão lutar pelo seu amor. Em paralelo, o Clown sofre ao viver uma paixão platônica pela mesma Beatriz. O palhaço, ironicamente, chora. A inspiração é o poema “A Túnica Inconsútil”, de Jorge de Lima.

Para dar veracidade à história, todo o elenco de 17 atores participou de oficinas de circo, com o preparador Leonardo Senna, que fez parte da Intrépida Trupe. Cada ator teve que aprender uma técnica e dominar uma especialidade. Reiner, que fez sucesso em “Tim Maia – Vale Tudo, o Musical” (outra direção do João Fonseca), escolheu o monociclo. Achou que seria um desafio, mas não esperava algo tão difícil. “Treinei por 60 dias, quase diariamente, sem sentir nenhuma evolução. Depois, do nada, aconteceu”, conta o ator, que vem ensaiando desde meados de janeiro, e também aprendeu a tocar um pouco de metalofone. Essa foi outra exigência desta grandiosa produção, idealizada por Isabel Lobo, filha do Edu. O elenco, além de tudo, tocará em cena. “O Ernani [Maletta, diretor musical] colocou todo mundo pra tocar. Não que a música toda seja feita pelos atores, mas eles se unem à banda oficial [de cinco músicos] para tocar esses instrumentos”.

Reiner Tenente durante ensaio em monociclo. (Foto: Reprodução / Facebook)
Reiner Tenente durante ensaio em monociclo. (Foto: Reprodução / Facebook)

Fica claro que não é mais um musical qualquer. Ao se apropriar das músicas desenvolvidas para o balé do Teatro Guaíra, em Curitiba, a equipe criativa se preocupou em ir além. “Beatriz”, “A História de Lily Braun”, “Ciranda da Bailarina” e “Na Carreira” já são atrativos suficientes para o público, mas por que não fornecer mais? Para se ter uma ideia, o elenco visitou os ensaios de “Corteo”, do Cirque du Soleil, e conversou com os artistas do renomado circo internacional. A impressão é que a equipe quer elevar o nível do que se vê em cartaz. No espetáculo, os personagens se questionam sobre a utilidade dos artistas em um mundo em guerra. Não é coincidência que o elenco também ponha seus talentos em provação – justamente agora.

O número favorito do Reiner Tenente é o de abertura, com a música “Na Carreira”. Ele a considera um hino da classe, e destaca os versos “ir deixando a pele em cada palco / e não olhar pra trás”. “Tem uma frase na peça que também estamos levando para a vida: ‘o espetáculo não é para qualquer um’. Ser artista, principalmente no Brasil, não é para qualquer um. São necessárias muita força, muita garra, muita dedicação, muita paixão. Muitos elementos que não é qualquer um que tem”. Se o espetáculo não é para qualquer um, “O Circo Místico” particularmente não é.

Reiner construiu uma parceria produtiva com João Fonseca (esquerda), iniciada com "Tim Maia - Vale Tudo, o Musical" (direita). (Fotos: Reprodução / Internet)
Reiner construiu uma parceria produtiva com João Fonseca (esquerda), iniciada com “Tim Maia – Vale Tudo, o Musical” (direita). (Fotos: Reprodução / Internet)

Esse é o quarto trabalho do ator com João Fonseca. Além de “Tim Maia”, ele trabalhou como preparador do elenco de “Cazuza” e de “Rock in Rio – O Musical”. Com experiência inclusive na Suécia, onde fez performances em um parque temático por um ano, e nos EUA, onde fez um curso de interpretação, Reiner é coordenador do Centro de Estudos e Formação em Teatro Musical (CEFTEM), no Rio de Janeiro. Dá aulas de segunda a quarta, para conciliar com a temporada de quinta a domingo. Considera-se ator “desde sempre” e, como o assunto é circo, também mantém vínculo afetivo com as lonas desde a infância. Um amigo do seu pai era dono de um circo pequeno em Minas Gerais e, sempre que estava por perto, a família ia assisti-lo. “Quando era criança, pedi um cirquinho de presente de Natal. Mas não era um de brinquedo. Eu queria um de verdade para montar no quintal e fazer meus números”, lembra o artista, que já participou de outra montagem do Chico Buarque anteriormente: “Roda Viva”.

Estudioso de teatro musical, Reiner nutre uma profunda admiração pelo cantor e, em particular, por seu trabalho para os musicais. No seu discurso, são destacadas “Gota D’água” e “Ópera do Malandro” também. “O Chico é incrível, né? Não preciso falar da genialidade dele”, elogia. “’O Grande Circo Místico’ é nossa maior referência de musical genuinamente brasileiro. Mergulhar nessa obra no Brasil é o equivalente a mergulhar em Shakespeare na Inglaterra e em Molière na França”. Neste ano, especificamente, o compositor está em alta nos palcos, por causa do seu 70º aniversário. Antes do “Circo”, o público entrou em contato com “Palavra de Mulher”, com Lucinha Lins e Tânia Alves, e “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”, idealização da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho. “Acho que vão ter outros espetáculos inspirados nesta comemoração, e todos vão herdar o público uns dos outros”, diz o ator, que assistiu à peça do Charles e do Claudio e adorou. Soraya Ravenle, integrante deste outro musical, também é incentivadora da recuperação dessas músicas em 2014: “O Chico é um grande gênio da nossa música, senão o maior, e merece todas as homenagens nessa data redonda. A gente tem mais é que ver, rever, reler, e botar novos olhares nessas obras que são referências da nossa cultura”.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Nesse espírito, “O Grande Circo Místico” adapta o balé dos anos 1980 para o teatro musical, em alta atualmente. A estreia está marcada para o dia 1º de maio, com ingressos que variam entre R$ 50 e R$ 150. A temporada é prevista até 27 de julho. A expectativa é grande, também, por parte do elenco. Entusiasmado, Reiner atrela aos musicais o retorno da alta frequência do público ao teatro. “Esse gênero está com a função de trazer as pessoas de volta para o teatro, e isso é muito importante para a nossa arte. Acho que é isso: fomentar não só o gênero, mas o teatro, a cultura. É um trabalho constante de nós artistas”. Falta pouco. Como diz a música: “bocas, quantas bocas / a cidade vai abrir / pruma alma de artista se entregar”.