“Entrevistado a respeito da crescente popularidade do namoro pela Internet, em detrimento dos bares para solteiros e das seções especializadas dos jornais e revistas, um jovem de 28 anos da Universidade de Bath apontou uma vantagem decisiva da relação contemporânea: ‘Sempre se pode apertar a tecla de deletar’”. O trecho é do livro “Amor Líquido”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, e sintetiza bem a era das redes sociais virtuais. A fragilidade das relações humanas intermediadas por suportes tecnológicos, como não poderia deixar de ser, vem sendo cada vez mais representada nos palcos. Exemplos recentes, no teatro carioca, são “Selfie”, com Mateus Solano e Miguel Thiré, e “Para os Que Estão em Casa”, com João Velho e Renato Livera.

Relações humanas cada vez mais intermediadas por aparelhos tecnológicos (Foto: Vicente de Mello)
Relações humanas cada vez mais intermediadas por aparelhos tecnológicos (Foto: Vicente de Mello)

As possibilidades são várias. Em “Selfie”, um texto da roteirista de TV Daniela Ocampo (de “Tá No Ar: A TV na TV”), Mateus Solano é Claudio, um cara viciado em tecnologia, que decide tirar suas informações da “nuvem” e criar seu próprio aplicativo de armazenamento, o MyClaudio, mas acaba perdendo todos seus dados. “É como se tivesse perdido um braço” é uma das frases emblemáticas do texto. Sem saber mais quem é, porque as fotos e redes sociais configuravam sua identidade, ele chega ao extremo de implantar um computador no cérebro, tornando-se um ciborgue conectado em tempo integral. Muito distante da realidade? Não, se você pensar que os smartphones são quase extensões do corpo, sempre na mão. Já em “Para os Que Estão em Casa”, que marca a estreia do ator e diretor Leonardo Netto (de “Conselho de Classe”) na dramaturgia, um grupo de amigos está sempre em contato por telefone, mas não consegue nunca se encontrar pessoalmente. O espetáculo aborda a solidão mascarada da sociedade sempre diante de telas luminosas, com poucas interações humanas.

Leonardo Netto afirma: "Eu sou muito atento às relações. Ainda vivo em modo analógico" (Foto: Vicente de Mello)
Leonardo Netto afirma: “Eu sou muito atento às relações. Ainda vivo em modo analógico” (Foto: Vicente de Mello)
– Esse é um assunto que me interessa muito. Eu acho que a vida hoje em dia dificulta as relações presenciais. Para quantos amigos você deixa de ligar no dia do aniversário porque mandou uma mensagem pelo Facebook? Todos, né, praticamente. O Facebook avisa que é aniversário da pessoa e você diz isso para ela. – Netto observa em entrevista ao Teatro em Cena. – Não acredito que esse seja um caminho sem volta. Um dos atores da peça, o João Velho, me disse que acha que ainda estamos nos educando, porque historicamente ainda é uma coisa nova. O fato de ter muitos filmes e peças falando disso mostra que o assunto está aí. Começamos a refletir. Já tem aquelas pessoas que botam os celulares em cima da mesa no bar e o primeiro que atender tem que pagar a conta. São reações bem humoradas a uma coisa que as pessoas estão percebendo.

Bauman escreve que a noção de “redes”, diferentemente de “relações”, “parentescos” e “parcerias”, traz implícita a capacidade tanto de conectar-se quanto de desconectar-se. Para o sociólogo, essas redes virtuais refletem a ânsia da sociedade contemporânea por possibilidades velozes e em grandes volumes. As amizades não são contadas mais nos dedos de uma mão. Em vez de amigos, fala-se em contatos, em listas de três a quatro dígitos, o que define a popularidade de alguém. Não é incomum que se converse e se tenha afeto por pessoas com as quais nunca se esteve pessoalmente. Isso acontece em “Eu Te Amo”, adaptação do filme de 1981 do Arnaldo Jabor para o teatro. Ao transplantar a história para o palco, sentiram a necessidade de atualizar a trama, com a inclusão da Internet. Na versão teatral, o casal protagonista se conhece na web e marca um encontro com fins sexuais (palmas: poderiam ter se resignado ao sexo virtual…).

Sergio Marone e Juliana Martins encenam atualização do filme "Eu Te Amo" para o teatro (Foto: Divulgação)
Sergio Marone e Juliana Martins encenam atualização do filme “Eu Te Amo” para o teatro (Foto: Divulgação)
– É engraçado, né? Hoje em dia, se alguém vem falar com a gente na rua, a gente não dá papo. Mas se vier falar na Internet, sim. Então a gente achou mais crível uma relação começar pela Internet do que em um encontro casual. – aponta a atriz Juliana Martins, que assume o papel que foi de Sônia Braga no cinema. Na história, os personagens dela e do Sergio Marone fingem ser outras pessoas (ele, um milionário; ela, uma prostituta) para se tornarem mais interessantes e fugirem de suas próprias identidades. – Eu tenho que fazer uma observação. O Jabor, lá em 1981, já brincava com avatar. No fundo, é isso. Hoje em dia, podemos fingir ser outras pessoas através da Internet. Mas o Jabor já brincou com isso em 81, sem Internet. Ou seja, é do ser humano. O que faz a gente fingir ser outra pessoa? A gente quer mostrar o que gostaria de ser, talvez. O que pensamos ser o ideal de nós mesmos.

No filme recente “Homens, Mulheres e Filhos”, do cineasta Jason Reitman, uma menina cria um Tumblr secreto para postar fotos de si mesma, com adereços mil. É uma maneira de se expressar, longe dos olhos controladores da mãe, que vigia seu computador e seu celular para preservar sua segurança em um mundo de bullying, pedofilia, namoro e perigos virtuais. No mesmo filme, outra mãe assume a postura oposta, criando um site para promover a suposta carreira de modelo de sua filha adolescente, vendendo fotos sensuais por encomenda para usuários desconhecidos. Juliana Martins, que tem uma filha de 14 anos, assume o meio-termo, atenta, mas sem ser controladora. Jura que não fuxica o Facebook da filha.

– Ela é ótima aluna, então quando começo a controlar o tempo dela na Internet, ela diz ‘Mãe, sou excelente aluna, durmo cedo, acordo cedo, então eu posso ficar na Internet’. Esses jovens são cheios de argumentos, né? – diz a atriz, não segurando o riso. – Ela faz trabalho em grupo pelo Skype. Minha mãe fica enlouquecida com isso: ‘É o fim dos tempos! Não tem mais o contato humano!’. Eu acho um máximo. É uma linguagem deles. Não tem como lutar contra isso. Só falo para ficar atenta aos perigos que tem por aí. Se algum adulto pede para ser amigo, ela não aceita. Mesmo se for meu amigo, ela pergunta para mim antes.

A própria atriz não dá abertura para estranhos na Internet. Ela só tem Facebook e rejeita as solicitações de desconhecidos. Só aceita se mandarem mensagens dizendo que são fãs e viram a peça, por exemplo. Em contrapartida, vê com bons olhos as relações mantidas via inboxes e Whatsapp. “Eu quase não posto, mas sempre entro para dar uma olhada na vida da galera”. Ela acredita que, de alguma maneira, esses aparatos aproximam as pessoas, embora o contato físico não possa ser descartado. Mais analógico, como ele mesmo diz, Leonardo Netto faz seus questionamentos.

– É possível viver a vida sem sair de casa? Ou nada substitui o contato humano “ao vivo”? O que diferencia as relações reais das virtuais? Estamos nos comunicando o tempo inteiro ou tendo apenas a ilusão disto? Até que ponto realmente vemos e ouvimos quem está do nosso lado? O progresso deveria nos transformar em seres humanos melhores, pelo menos teoricamente. Mas não estaremos nos contentando cada vez menos?

A arte não responde. Pergunta.

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EU TE AMO: sex e sáb, 21h30; dom, 20h. R$ 60 (sex), R$ 70 (sáb e dom). 75 min. Classificação: 16 anos. Até 1º de março (recesso no fim de semana de Carnaval). Teatro Fashion Mall – Sala 2 – Estrada da Gávea 899, São Conrado, Shopping Fashion Mall – Tel: 2422 9800.

PARA OS QUE ESTÃO EM CASA: qui a sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 20 (ou R$ 5 para associados Sesc). 80 min. Classificação: 14 anos. Até 8 de fevereiro. Espaço Sesc – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

SELFIE: qui a sáb, 21h; dom, 20h. R$ 60 (qui e sex) e R$ 70 (sáb e dom). 70 min. Classificação: 14 anos. Até 25 de janeiro. Teatro Miguel Falabella – Norte Shopping – Av. Dom Hélder Câmara, 5332/2ª piso – Del Castilho. Tel: (21) 2597-4452.