(Foto: Divulgação)
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O crítico teatral Rodrigo Monteiro está comemorando mil críticas publicadas. A milésima, sobre o musical “A Cuíca de Laurindo”, entra no ar nesta semana, e o espetáculo já é eleito por ele um dos melhores que viu nos últimos 30 dias. Atualmente, Rodrigo, que também é jurado do Prêmio APTR, assiste de 13 a 15 espetáculos mensalmente, e vê com bons olhos a cena carioca, que é foco do seu trabalho.

– Diferente do que acho que se pensa por aí, o teatro carioca está ficando cada vez mais experimental. Assim chamo aqueles espetáculos em que os encenadores, renomados ou menos, fazem pesquisas de linguagem, procuram descobrir coisas, valorizam mais o processo do que o produto, fogem do lugar confortável. Acho isso muito interessante porque mantém o panorama vivo! – avalia em entrevista ao Teatro em Cena.

No blog Crítica Teatral (teatrorj.blogspot.com), mantido desde 2012, totalizam 776 críticas até o momento, com mais de 565 mil acessos. Dessas, duas, sobre os musicais “Wicked” e “Cinderella”, foram publicadas em primeira mão aqui no Teatro em Cena. As outras 224 das mil estão no blog Porto Alegre: Crítica Teatral (teatropoa.blogspot.com), onde tudo começou, em 2008. Na época, Rodrigo, egresso da faculdade de Letras e terminando a de Cinema, fazia uma oficina de crítica teatral promovida pelo festival Porto Alegre Em Cena, que propunha a apresentação de uma crítica no final. Foi quando ele abriu o primeiro blog para publicá-la e não parou mais. Os convites para escrever sobre outros espetáculos vieram naturalmente. Em seguida, fez o mestrado em Artes Cênicas na UFRGS, pesquisando sobre análise do espetáculo. Destacou-se e se tornou jurado do Troféu Açorianos de Teatro e do Prêmio Brasken (do Porto Alegre em Cena). Foram três anos e meio exercendo a função e crítico em Porto Alegre até vir para o Rio de Janeiro, onde dá aulas na SENAI/Cetiqt e cursa o doutorado na UFRJ, com pesquisa voltada para o teatro espanhol do século XVII.

Quem se interessa por teatro fica de olho no que Rodrigo Monteiro escreve. Suas críticas se diferenciam por serem mais longas que o comum, com muitas informações complementares e uma forte contextualização histórica. “É uma estratégia para argumentar”, explica. “Para defender minha análise de um espetáculo, preciso recorrer muitas vezes a fontes que estão no além da peça. Eu vejo como uma qualidade da crítica a justificativa do porquê eu penso assim ou assado a obra”. Mas ele tem como meta pessoal tornar seus textos mais sucintos. Algum dia. Por enquanto, recebe elogios justamente por esse trabalho de pesquisa para cada crítica publicada. Ou melhor, às vezes.

– Já teve de tudo: de presentes a ameaças de toda ordem, de agradecimentos públicos a difamação no Orkut e no Facebook. Nesses quase oito anos, eu entendi que todo mundo que fala mal quando eu escrevo uma crítica negativa fala bem quando ela é positiva. Ou seja, quase não dá pra se levar muito a sério tanto o aplauso quanto o xingamento. Como eu acho que todo mundo deveria fazer, eu ouço todas as opiniões que posso sobre mim e sobre meu trabalho, mas levo em conta apenas algumas. E procuro ir melhorando com base nessas últimas.

(Foto: Divulgação)
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Recentemente, além de “A Cuíca de Laurindo”, ele gostou do monólogo “Se Eu Fosse Iracema”, da ópera “Don Quichotte”, do monólogo “Estamira – Beira do Mundo” (“já tinha visto em 2011 e continua uma experiência belíssima”) e do vencedor do concurso Seleção Brasil em Cena “A Tropa”. Todos elogiados também por outros críticos. Rodrigo, aliás, não vê uma crise da crítica. Diminuiu o espaço para ela no impresso, ao mesmo tem que se multiplicou na Internet.

– Para a escolha do Prêmio de Teatro de 1948 da Associação Brasileira de Imprensa, 46 críticos teatrais se reuniram para indicar e definir os vencedores. Se fôssemos reunir todo mundo que opina sobre teatro hoje em dia, passaríamos de cem. A internet democratizou a voz: o público compartilha fotos, comentários e experiências nas redes sociais. Tudo isso é crítica! Claro, há alguns que escrevem de modo mais acadêmico, outros mais emocionados, outros são mais frios. Há quem escreva de dentro, outros de fora. Cotações, estrelinhas, textos mais longos, mais curtos, de todos os formatos. Em via impressa, só há o Macksen Luiz n’O Globo e o Jefferson Lessa na Veja, mas os textos de ambos também estão em via digital como todos os demais. Por isso, eu não vejo uma crise na crítica. Ela só está mudando de figura, como o mundo e a mídia também estão mudando.