(Foto: Sergio Baia)
(Foto: Sergio Baia)

Idealizado por Mateus Solano (de “Do Tamanho do Mundo”) e Miguel Thiré (de “Os Altruístas”), “Selfie” é uma das boas surpresas da temporada de fim de ano. Com a proposta de instigar uma reflexão sobre a sociedade virtualmente conectada por meio de smartphones e aplicativos, o espetáculo esfrega na cara da plateia todas suas manias e anomalias tão instituídas quanto incentivadas pelo mercado tecnológico. E tudo é feito com perspicácia admirável – resultado da direção inteligente de Marcos Caruso (de “Agora”) e do impressionante talento de ambos os atores.

Instagram. Facebook. WhatsApp. Twitter. Tinder. Tudo que se espera está lá. Mas o texto, de Daniela Ocampo (do programa “Tá No Ar: A TV na TV”), vai além de um espelho do comportamento contemporâneo. Na história, Claudio (Mateus Solano) decide de livrar de todas essas plataformas online, para que as grandes companhias não tenham mais acesso às suas informações. Seu objetivo é criar o MyClaudio, um sistema próprio. Mas cai café no seu celular e ele perde tudo que tinha armazenado (sem possibilidade de backup). “É como se tivesse perdido um braço”. Nessa primeira parte do espetáculo, a identificação é imediata. Claudio não sabe mais quem é, porque perdeu todos os signos digitais que o caracterizavam e o constituíam. É quando ele implanta um computador no cérebro e se torna um ciborgue, com inteligência e velocidade sobrenaturais. Aqui, o espetáculo questiona as noções de tempo e se distancia da realidade, com ares de ficção científica. Haveria maneira melhor do espectador se perceber do que deslocar seu comportamento para outra realidade? Não. Texto incrível, ímpar.

(Foto: Vitor Zorzal)
(Foto: Vitor Zorzal)

Miguel Thiré dá vida a todos os outros 11 personagens que interagem com o protagonista, e faz um trabalho deslumbrante. Responsável pela parte cômica, ele se destaca em vários momentos, como Solange, a mãe; Amanda, a namorada; e Suzana Souza, a apresentadora de TV. Sua sintonia com Mateus Solano é impressionante. Chama a atenção particularmente o trabalho deles como sonoplastas ao vivo, emitindo com a boca todos os sons de aparelhos e aplicativos em cena: enquanto um se movimenta, o outro faz os barulhinhos. Tudo milimetricamente ensaiado. Os dois conseguem imprimir na movimentação e na fala todas as características da estrutura virtual. O preparador corporal Arlindo Teixeira merece créditos.

Os figurinos (de Sol Azulay) se limitam a macacões azuis e o cenário (do próprio Marcos Caruso) é restrito a um revestimento no chão parecido com um tablet. É uma concepção admirável, porque também comunica. Além de ressaltar a atuação dos atores, ela mostra como não há mais valor o que está a nossa volta. Só enxerga-se o mundo através das telas. Lugares físicos não importam mais. Vive-se na “nuvem”. Brilhante.

O espetáculo fará temporada de quase três meses no Teatro Miguel Falabella, no Norte Shopping, ficando em cartaz até 25 de janeiro, com sessões de quinta a sábado às 21h e domingo às 20h. Os ingressos custam R$ 60 quintas e sextas e R$ 70 sábados e domingos. A classificação etária é de 14 anos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.