Recém-estreado na Caixa Cultural, o espetáculo “Cachorro Quente” retoma a parceria entre Sacha Bali e João Fonseca, que criaram juntos o “Pão Com Mortadela” (2007). A semelhança dos títulos não indica a continuação de uma história, mas certamente a continuidade de uma linha de pesquisa. No primeiro trabalho, que rendeu uma indicação ao Prêmio Shell de Melhor Direção, Bali e Fonseca mergulharam na obra do escritor Charles Bukowski (1920-1994), especialmente no romance “Misto Quente” (Ham On Rye), o que deu origem à série de títulos culinários. Neste novo, se inspiraram livremente na obra do autor Chuck Palahniuk (1962-). Em comum, o underground, os traumas infantis e os temas pouco digeríveis apresentados de maneira extremamente palatável. Aqui, com humor negro, trata-se de problemas de saúde, de velhice, de fetiches sexuais, de ética e de estilos de vida constantemente apedrejados.

Letícia Lima e Sacha Bali em cena de "Cachorro Quente" (Foto: Divulgação)
Letícia Lima e Sacha Bali em cena de “Cachorro Quente” (Foto: Divulgação)

Na comédia “Cachorro Quente”, Sacha Bali é Luca Mastroianni, um jovem viciado em sexo, que vive de golpes em restaurantes chiques, e é pouco amável com a mãe, diagnosticada com Alzheimer e internada em um asilo. É o anti-herói, e ainda assim carismático. Ele participa de um grupo de apoio a viciados em sexo e, para cumprir a quarta etapa do tratamento, precisa saber mais sobre sua origem e infância. Sua única fonte de informações é a mãe, que, além da doença degenerativa, tem o agravante de pouco ter convivido com ele, por ser uma terrorista internacional, ora presa ora em fuga. Quando o sequestrava de orfanatos e pais adotivos, também pouco se preocupava: só o alimentava com cachorro quente. Mas, aos poucos, ele consegue extrair uma revelação capaz de mudar não só a vida dele, como de toda a humanidade.

Variando-se entre idosos do asilo, viciados em sexo e outros personagens menores, o elenco conta com Olívia Torres (de “Vida, o Musical”), Pedro Henrique Monteiro (de “Adeus à Carne”), Renato Livera (de “Fã-Clube”), Rosanna Viegas (de “Pão Com Mortadela”) e Letícia Lima, com potencial de atrair público pelo rosto conhecido nos esquetes do Porta dos Fundos. Pedro é hilário como a líder do grupo de apoio, mas todos os atores, inclusive o protagonista, estão impecáveis em suas interpretações, convincentes e cômicas, matando a plateia de tanto rir de assuntos por vezes delicados.

Vício em sexo leva protagonista a experimentar bolinhas tailandesas - em outras palavras, bolinhas anais (Foto: Divulgação)
Vício em sexo leva protagonista a experimentar bolinhas tailandesas – em outras palavras, bolinhas anais (Foto: Divulgação)

Esse é o melhor do texto, assinado por Sacha e João Fonseca (que também dirige): a maneira como os maiores “absurdos” são apresentados e construídos – para em seguida serem desconstruídos. Da mesma maneira que a trama faz questão de lembrar que o espectador está rindo dos viciados em sexo, mas esse é um problema sério, que afeta pessoas mais próximas do que se imagina; ela também embasa insanidades fantasiosas como licenças poéticas para depois escrachá-las como quem diz “você acreditou nisso?”. A construção da história é genial – e dá conta, sim, de tanta informação (são muitas variáveis). Todas as tramas paralelas são bem amarradas.

Nello Marrese assina os figurinos, que especificam os pulos narrativos, e o cenário, que é formado apenas por dezenas de caixas de papelão. Contrariando expectativas, as caixas compõe um visual bacana – e são uma ironia intrínseca, porque o espetáculo é completamente “fora da caixa”. A iluminação (de Luiz Paulo Nenem) completa o visual, e é fundamental em alguns momentos. Mas nada se sobrepõe à inteligência do texto, bem dirigido e bem apresentado pelos atores.

SERVIÇO
CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Teatro de Arena – Avenida Almirante Barroso, 25 – Centro. Tel: 3980-3815.
Dias e horários: quinta a domingo, 19h.
Ingresso: R$ 20. Clientes da Caixa também pagam meia-entrada.
Duração: 90 minutos
Classificação: 14 anos.
Até 7 de dezembro.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.