A chegada do musical “Palavra de Mulher” ao Teatro Maison de France completa um cenário curioso no Rio de Janeiro. A partir de quinta (15/5), estarão em cartaz simultaneamente três peças exclusivamente com músicas do Chico Buarque na trilha sonora. Além do espetáculo concebido por Fernando Cardoso, há ainda “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” (da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho) e “O Grande Circo Místico” (do João Fonseca). Não é coincidência nem falta de criatividade: além da Copa do Mundo no Brasil, 2014 também é o ano do 70º aniversário do cantor e compositor carioca. A comemoração é só no dia 19 de junho, mas o ano já começou em festa.

(Foto: Reprodução / Rolling Stone)
(Foto: Reprodução / Rolling Stone)

O músico tem um relacionamento estreito com o teatro, e não chega a ser surpreendente que venham dos palcos os maiores tributos. “Acho que Chico Buarque e sua obra merecem todas as homenagens, não apenas no aniversário, mas sempre”, diz Fernando Cardoso, que desenvolveu um espetáculo no qual as atrizes Lucinha Lins, Tania Alves e Virgínia Rosa interpretam as personagens de suas canções, como “Folhetim” e “Bem Querer”. Chico Buarque é conhecido como um dos poetas que melhor lê o universo feminino – o que já despertou diversos estudos acadêmicos – e “Palavra de Mulher” tem agradado as plateias para as quais se apresenta. O musical teve duas temporadas em São Paulo e esgotou teatros em sua turnê, com muitos elogios.

O início da temporada no Rio é recebido com entusiasmo, e Cardoso não vê as outras duas peças em cartaz como concorrentes. Acredita que há espaço para todas e “para outras que ainda virão se juntar nessa merecida celebração”. O clima em todas as equipes é o mesmo. O ator Reiner Tenente, de “O Grande Circo Místico”, fez questão de assistir a “Todos os Musicais…” e adorou. A atriz Malu Rodrigues, do elenco da peça de Möeller e Botelho, por sua vez, prestigiou a estreia do “Circo”, e também saiu elogiando. “Acho que qualquer coisa que se faça sobre Chico Buarque é ótimo, necessário e bem vindo”, destaca João Fonseca. “A gente tem a sorte de conviver com ele, então vamos aproveitar, homenagear e escutar. Quem é o maior autor de músicas para o teatro musical brasileiro? É ele”.

Músico com elenco de
Músico com elenco de “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”. (Foto: Reprodução / Facebook)

Ex-marido da atriz Marieta Severo (de “Incêndios”) e pai da atriz Sílvia Buarque (de “O Estranho Caso do Cachorro Morto”), Chico Buarque é íntimo das coxias. Escreveu espetáculos que entraram para a história da dramaturgia nacional: “Roda Viva”, “Calabar: o Elogio da Traição”, “Gota D’Água” e “Ópera do Malandro”. Com Edu Lobo, também desenvolveu trilhas inteiras para balés ou peças, como “O Corsário do Rei”, “Dança da Meia Lua” e “Cambaio”, além do próprio “O Grande Circo Místico”. Tanta produção ganhou destaque em “Todos os Musicais…”, peça que reúne as canções desenvolvidas por ele para musicais. Desde sua estreia em janeiro, o espetáculo tem esgotado sessões no Teatro Clara Nunes, o que rendeu uma prorrogação da temporada até 1º de junho.

Atriz de renome no teatro musical brasileiro, Malu Rodrigues admite ao Teatro em Cena que cantar Chico Buarque é difícil e desafiador. “Tem que estudar muito. Muita gente canta, mas não canta do jeito que deveria ser cantado. Não é todo mundo que pode cantar Chico Buarque”, afirma. A declaração é corroborada pelo doutor Peter Dietrich, autor da tese “Semiótica do Discurso Musical – Uma Discussão a Partir das Canções de Chico Buarque”. Ele confirma que o compositor tem composições complexas, mas prefere descartar generalizações quanto à sua obra. “Ele é completo, capaz de fazer canções extremamente ‘fluentes’, fáceis de cantar e memorizar, e também canções extremamente complicadas do ponto de vista musical. Simples ou complexas, todas são sofisticadas”.

Chico Buarque com elenco e equipe de
Chico Buarque com elenco e equipe de “O Grande Circo Místico”. (Foto: Divulgação/Minas de Ideias)

“Beatriz”, “Ciranda da Bailarina” e “A História de Lily Braun” atestam. Todo mundo conhece, e canta. As três fazem parte da trilha de “O Grande Circo Místico”, originalmente desenvolvida para o balé do Teatro Guaíra nos anos 1970. As canções foram deslocadas e se transformaram na base do musical homônimo, estreado neste mês no Theatro Net Rio. E todo mundo canta. Os autores da peça, Alessandro Toller e Newton Moreno, tratam a obra do Chico como material primoroso. Toller ressalta que as canções do Chico são valiosas para essa onda de musicais que se vive atualmente no Rio e em São Paulo. “Ter um representante tão importante da música nacional é muito interessante para o teatro musical. Olhar para algo muito bom produzido no Brasil faz todo sentido”, observa.

E estão olhando mesmo. Os três musicais em cartaz não esgotarão a produção chicobuarqueana em 2014. Há pelo menos mais dois a caminho. João Falcão prepara uma remontagem de “Ópera de Malandro” para o segundo semestre, e Ruy Castro, que divide a autoria de “Calabar” com Chico, que fazer justiça à peça. Censurada na véspera da estreia em 1973 e só encenada sete anos depois, em uma versão aprovada, ela pode ter sua redenção em meio às comemorações do 70º aniversário. “Casou muito os 70 anos com a efervescência musical crescente”, diz João Fonseca. “Tudo do Chico é de uma beleza tão grande… Acho que tem que ser sempre homenageado: nos 70, 71, 71, 73 anos..”.