Popularmente conhecida por dar vida à Delzuite na novela “Salve Jorge”, Solange Badim tem mais de 30 anos de teatro. “Ai, vamos botar 30? Vamos arredondar. Uns 28, vai. Comecei criança…”, ri a atriz, em entrevista descontraída no Teatro Poeira, onde está em cartaz com a peça “Deixa Que Eu Te Ame”. Sentada em um banco de madeira em semicírculo, uma hora e meia antes do espetáculo, ela chega reclamando do trânsito – como todos que passam por aquela porta, vitoriosos do engarrafamento de Botafogo. Solange já está maquiada para o espetáculo, sobre o qual fala com muito carinho. É seu primeiro trabalho com o diretor Aderbal Freire-Filho (de “Incêndios”), com quem flertava há tempos.

Solange com Isio Ghelman em "Deixa Que Eu Te Ame" (Foto: Divulgação/Nil Caniné)
Solange com Isio Ghelman em “Deixa Que Eu Te Ame” (Foto: Divulgação/Nil Caniné)

Além disso, a atriz também está contente por interpretar um texto do Alcione Araújo (de “Doce Deleite”) – outra primeira vez para ela. Foi a qualidade do roteiro, com seu tom político e bem humorado, uma das razões para que ela aceitasse o trabalho. Mas o mais importante para ela era “a turma”. “Isso para mim é fundamental”, explica ao Teatro em Cena. “Teatro é muito família, né? A gente se vê todos os dias e fica horas juntos. É melhor que seja com pessoas que temos afinidade”. No elenco, ela contracena principalmente com Isabel Lobo (de “Decameron”), Paulo Giardini (de “Aos Domingos”) e Isio Ghelman (de “Moby Dick”), que substituiu Paulo Tiefenthaler (de “A Alma Boa de Setsuan”) nesta nova temporada.

Antes do teatro da Marieta Severo e da Andréa Beltrão, “Deixa Que Eu Te Ame” passou pelo Eva Herz, no Centro. “Tivemos muito pouco tempo de ensaio para o trabalho que é. Foram cinco semanas bem intensas, seguidas das cinco semanas de temporada, nas quais, na verdade, estávamos construindo, entendendo e nos apropriando durante as sessões. Vir para cá foi um bônus-track. Quando estava ficando gostoso, acabou a temporada lá, então ainda bem que tinha aqui”, confessa Solange, que recebeu uma indicação ao Prêmio Cesgranrio por esse trabalho. Ela não levou o troféu – Zezé Polessa foi a vencedora, por “Quem Tem Medo de Virgínia Wolf” – mas sente-se vitoriosa da mesma maneira. Para a atriz, já é uma honra ser apontada como uma das seis melhores do ano. Durante sua trajetória de mais de 30 anos de carreira – ou 28, como queira – ela também foi indicada ao Prêmio Mambembe (por “Sujô no Olimpo” e “A Gata Borralheira”) e premiada no Prêmio Cultura Inglesa de Teatro (por “As Armas e o Homem de Chocolate”).

Solange Badim em "Deixa Que Eu Te Ame". (Foto: Divulgação/Nil Caniné)
Solange Badim em “Deixa Que Eu Te Ame”. (Foto: Divulgação/Nil Caniné)

No espetáculo atual, ela interpreta Helena, uma mulher que ficou deprimida depois de perder o grande amor de sua vida (que foi estudar economia fora do país) e se casou com o irmão dele. Ex-pianista, ela se ressente da vida que não teve e, ao reencontrar o cunhado, tenta seduzi-lo a toda custa, sem poupar cenas constrangedoras para a mulher dele e para o próprio marido. Toda a trama se passa durante um jantar em um restaurante nostálgico, que aos poucos vai trazendo à tona vários sentimentos reprimidos por anos. “A Helena botou isso na cabeça dela: que a vida não foi boa porque aquilo lá atrás não aconteceu. Ela não se permitiu ter a vida que, afinal de contas, ela escolheu. É um personagem muito rico neste sentido”, avalia Solange. “Todos os personagens nesta peça são um pouco frustrados. Há esse sentimento de que nada funciona e de que o país não vai pra frente. A sensação que tenho é que todos os personagens gostariam de estar em outro lugar, vivendo uma vida que não a deles. Mais pela desesperança do que pela vida que tiveram”.

É aí que surge o tom político da peça: a partir do confronto entre os casais insatisfeitos. Uma sutileza é que o cunhado bem sucedido mora em Brasília, casado com uma ex-jornalista, que pratica tráfico de influência para cuidar da visibilidade da carreira dele. Ambos consomem cocaína para lidar com o dia-a-dia. Uma das falas do texto diz mais ou menos assim: “quando a economia impera, a política assiste”. Alcione, que morreu sem ver a peça montada, escreveu tudo no fim da década de 1990, mas parece que foi ontem. “A gente regrediu neste país”, Solange diz e faz uma longa pausa. “Não quero falar de política. Vim discutindo política no carro. Mas realmente acho que é isso. O texto fala de tudo que estamos vivendo: corrupção, crise na saúde, crise na educação, pivete na rua, flanelinha”. Ela admite: sente falta do teatro político, que via com mais frequência no século passado. Na sua opinião, esse é um dos trunfos do espetáculo, porque mexe com o espectador e o obriga a refletir.

Em dois momentos: na peça "Emilinha e Marlene" e na novela "Salve Jorge
Em dois momentos: na peça “Emilinha e Marlene” e na novela “Salve Jorge” (Fotos: Divulgação)

Só que também há o humor e o tango – dois artifícios que tornam os 90 minutos mais leves. O humor é do próprio Alcione, que conseguiu dar certo distanciamento para determinadas situações pontuais, e o tango foi ideia do diretor, que viu na relação passional dos personagens a associação com a dança. Não é um trabalho cênico fácil para os atores – e Solange Badim aderiu ao projeto vinda de uma personagem tão forte quanto, a Dezuilte. “Acho que não tenho uma técnica para sair de um personagem e entrar em outro. É o tempo. No teatro, tem os ensaios e você vai construindo aquilo”. Ela lembra, porém, que alguns amigos notaram um quê de Marlene nos primeiros capítulos de “Salve Jorge”. Ela havia acabado de terminar a temporada do musical “Emilinha e Marlene”. “Eu realmente me agarrei a ela, porque acho que me identifiquei com a explosão e o espírito. Eu sou artista, ela é artista e eu estava representando-a. Foi muito forte pra mim. Então entendo que tenha refletido um pouco na Dezuilte. Mas depois ela ganhou vida própria. Descendo aquela ladeira do Alemão todo dia, não tinha como não ganhar”, afirma.

Tanto a novela quanto as peças mais recentes vieram através de convites. Mas Solange também tem passagens como produtora. Ela aponta duas – com destaque para a montagem de 1992 de “A Mulher Sem Pecado” (do Nelson Rodrigues), que tinha música ao vivo. “Eu quase arranquei todos os cabelos da cabeça”. Embora diga que “gostar [de produzir] não é exatamente o termo”, ela acha que essa experiência é importante para o ator conhecer todo o processo de levar uma peça ao palco. Graças a esses trabalhos, ela hoje em dia dá seus pitacos, mesmo quando não é questionada. “Sempre me meto. Não sou eu que vou usar o figurino? Aquela luz não vai me iluminar? Então dou minha contribuição. Às vezes me respeitam, às vezes dão ouvidos”, ri um bocado. “Para alguma coisa servem os 28 anos de profissão, né?”.