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Uma família que não poderia ser mais desconectada entre si e afundada na solidão. Essa é a unidade central de “Família Lyons”, espetáculo do americano Nicky Silver, que ganha montagem brasileira com direção do Marcos Caruso (de “Selfie”). Na história, o mal humorado pai (Rogério Fróes, de O” Dia em Que Raptaram o Papa”) está em estágio terminal de câncer e a mãe (Suzana Faini, de “Silêncio!”) reúne os filhos no hospital para a espera da morte. A filha (Zulma Mercadante, de “E Agora, o Que Eu Faço Com o Pernil?”) é alcóolatra e o filho (Emílio Orciollo Netto, de “Também Queria Te Dizer – Cartas Masculinas”) tem uma grande mágoa do pai por não ter aceitado sua homossexualidade. Nenhum dos dois mantém bons ou qualquer relacionamentos com os pais e ambos preferiam estar em qualquer lugar, menos ali.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

A tensão que marca reuniões familiares com cobranças e mágoas reprimidas é bem explorada pela direção. O ambiente – o quarto particular de hospital – também colabora. O cenário é de Alexandre Murucci, que apresenta uma estrutura engenhosa para a necessária mudança de local no meio da história. Essa mesma estrutura, porém, parece inacabada por deixar à mostra as paredes pretas do teatro, que não combinam com o que se espera de um hospital, ainda que seja uma referência ao iminente luto. Os figurinos de Patrícia Muniz refletem a desarmonia e excesso de informação dos personagens.

A dramaturgia do Nicky Silver disseca a solidão e o desequilíbrio desse núcleo familiar. A mãe, que faz planos para reformar a sala após a morte do marido, e já convida os filhos para passarem um tempo em sua casa para não ficar sozinha. Os filhos, que inventam mil desculpas para não passarem esse tempo lá. O pai, que acha que por morrer pode deixar qualquer gentileza de lado. São familiares que se odeiam e se veem obrigados a cumprir uma convenção social naquele momento. São muitos traumas e ressentimentos envolvidos e a trama acaba tratando alguns com superficialidade por uma questão de foco. Mas faltam alguns desfechos.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Merece mérito a construção envolvente e cativante de cada personagem, com destaque para a mãe – chamada de vaca pelo marido e pelos filhos. Detestável, de alguma maneira, ela conquista a plateia. Suzana Faini está brilhante, lembrando um pouco seu último trabalho – “Silêncio!”, no qual também fazia uma mulher controversa – e arranca aplausos em cena aberta. Um monstro em cena. Em um papel bem menor, a enfermeira, Rose Lima (de “A Menina Edith e a Velha Sentada”) também tem bons momentos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: sex a seg, 20h. R$ 30. 90 min. Classificação: 14 ano. De 15 de maio até 29 de junho. Teatro Glaucio Gill – Praça Cardeal Arcoverde, s/nº – Copacabana. Tel: 2332-7904.