Imagine chegar ao teatro, comprar o ingresso, se sentar na poltrona e não ver nada. Não como na peça “O Que Você Vai Ver”, no qual o espectador encarava a cortina enquanto ouvia as vozes dos atores. Não. Não ver nada… mesmo. Com direito a venda nos olhos. Essa é a proposta do Teatro dos Sentidos, que pode ser experimentada na Caixa Cultural, no Centro, com o espetáculo “Feliz Ano Novo”. O público chega, é vendado e vivencia outra forma de encenação, explorando seus outros sentidos. Em bom português, é como ficar cego por 60 minutos.

(Foto: Divulgação)
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A ideia é da pesquisadora carioca Paula Wenke, e não é exatamente uma novidade. Em 2010, o teatro dos sentidos registrou a maior bilheteria do teatro de arena da Caixa Cultural, e também recebeu elogios da crítica, pela inclusão. Mas, para 2014, o projeto conta com uma novidade tecnológica que torna a experiência ainda mais rica: um som imersivo baseado no losono, que projeta focos e planos de som. Não entendeu? É o equivalente do 3D para o áudio, como se fosse a perspectiva do som – tornando possível sentir se ele está vindo do céu ou de apenas alguns centímetros do espectador.

A proposta é atrativa para quem gosta de experiências diferentes, e essencial para quem é cego de verdade. Paula Wenke iniciou este trabalho no Instituto Benjamin Constant em 2001 e mantém contato com a instituição, de modo que deficientes visuais estão sempre a par das apresentações. Há também a possibilidade de atores cegos integrarem o elenco, já que a escalação não existem limitações físicas para a escalação. Para quem enxerga no dia-a-dia, a supressão da visão cênica estimula a “intravisão”: a criação de suas próprias imagens a partir da memória ou do inconsciente.

Paula Wenke, a idealizadora, no centro (Foto: Divulgação)
Paula Wenke, a idealizadora, no centro (Foto: Divulgação)

Para os atores em cena, claro, é um enorme desafio contar uma história que não é vista. É um trabalho que vai além do realizado em radionovelas, por exemplo. Igo Ribeiro é um dos atores incumbidos do que a idealizadora chama de “provocar”. Para isso, recebeu um treinamento especial. Junto com o resto do elenco, teve que andar vedado pela cidade e executar atividades cotidianas de locomoção, alimentação, convívio social e interação com o meio. No Jardim Botânico, o elenco experimentou aromas, texturas e sabores, e trocou impressões. “A partir dessas conversas criamos o que chamamos de ‘kit de provocação’, que é todo material que usamos para aguçar os quatro sentidos remanescentes”, Ribeiro conta ao Teatro em Cena. “A Paula sempre insiste na importância do cuidado e da delicadeza da provocação, pois a maioria do público se sente extremamente temeroso a princípio”.

Para ele, que foi bailarino e acrobata aéreo, é difícil abrir mão do trabalho corporal em cena. A encenação de “Feliz Ano Novo” do teatro dos sentidos é focada na performance vocal. “O público precisa sentir uma cena de guerra ou de chuva apenas pela nossa voz. Acho que o fato de ser locutor e narrador de audiobooks me ajuda bastante também”, pontua Ribeiro. Os textos que Wenke monta são sempre adaptados nesse sentido, ricos em ação, reflexão, comicidade, dinamismo e romance. Na peça, Gabriel é o filho adolescente de Roberto, Comandante da Marinha e viúvo. O garoto encontra um livro de Vinicius de Moraes com uma dedicatória de amor de uma mulher misteriosa que assina “Dama do Mar”, e pergunta ao pai sobre ela. O Comandante se vê quase que obrigado a relembrar o encontro intenso dos dois em uma noite de Réveillon, baile de máscaras e fantasia. O rapaz, também apaixonado por uma coleguinha de escola, pode mudar o rumo da história romântica de seu pai.

Venda não impede diversão, pelo contrário (Foto: Divulgação)
Venda não impede diversão, pelo contrário (Foto: Divulgação)

A temporada do espetáculo, que conta com 13 nomes no elenco, vai até 26 de outubro na Caixa Cultural. As sessões são sábados e domingos às 19h, e os ingressos custam R$ 20.