Um espetáculo infantil qualquer. Atores interpretando no palco – possivelmente cantando também. Na plateia, crianças envolvidas com a história, prestando atenção, encantadas com as cores e a magia do teatro. Uma ou outra assustada, com medo. Uma ou outra fazendo perguntas aos pais, que as acompanham. Algumas gritando para o herói tomar cuidado com o vilão. Uma ou outra querendo subir no palco. Uma começa a chorar, no fundo da sala (o choro geralmente vem do fundo – pode apostar). No início, baixinho, mas, sem que ninguém perceba a transição, de repente é um berreiro. As crianças concentradas olham para ver quem incomoda. Os atores rebolam para contornar a situação e reconquistar a atenção de todos. Pai e mãe só saem da sala quando a situação está muito constrangedora.

Quem nunca levou uma criança ao teatro e presenciou uma cena assim? Por conta disso, algumas produções adotam a “recomendação”. Já que a classificação é livre, elas ressaltam que a montagem é recomendada para crianças acima de tal idade. Como brinquedos, peças diferentes para faixas etárias diferentes. Mas há uma idade adequada para começar a levar as crianças ao teatro? A pergunta divide os artistas que trabalham com isso.

Luana Piovani em cena de "Mania de Explicação": atriz acredita que qualquer idade é idade para ir ao teatro (Foto: Divulgação)
Luana Piovani em cena de “Mania de Explicação”: atriz acredita que qualquer idade é idade para ir ao teatro (Foto: Divulgação)

A atriz e produtora Luana Piovani, de “Mania de Explicação”, acredita que não. Para ela, a questão de ir ao teatro depende mais do tipo de criança do que da idade. Por exemplo, crianças que se assustam facilmente com um ambiente mais escuro ou uma música mais alta provavelmente vão encrencar durante a encenação. “Dá até para levar para incentivar, porque mesmo que não absorva a mensagem do texto, vai se encantar com o lúdico que uma peça infantil normalmente tem”, disse ao Teatro em Cena.

Thais Belchior, do elenco de “Fonchito e a Lua”, tem outro ponto de vista. A atriz acredita que é complicado levar ao teatro uma criança muito novinha, que não compreende o que está acontecendo no teatro. “É melhor levar quando ela tem um certo entendimento. Óbvio que é tudo muito lindo, com muita cor, mas o teatro é legal quando a criança está entendendo, quando ela fica hipnotizada”, opina. O diretor Isaac Bernart, premiado por “Lili – Uma História de Circo”, arrisca até uma faixa etária: com um ano e meio, dois anos, já dá para levar. Antes disso “fica meio complicado, né?”. “E eu acho que os pais podem sair e entrar, de uma forma tranquila, se a criança incomodar”, ressalta.

Thais Belchior, de "Fonchito e a Lua", defende que crianças vão ao teatro quando tenham entendimento do que está acontecendo (Foto: Divulgação)
Thais Belchior, de “Fonchito e a Lua”, defende que crianças vão ao teatro quando tenham entendimento do que está acontecendo (Foto: Divulgação)

A dica do George Sauma, ator de “Pedro Malazarte e a Arara Gigante”, é ficar mesmo ligado no detalhe do “recomendado para tal idade”. Embora diga que os bebezinhos “piram” com o espetáculo do Pedro Malazarte, por causa a vaca no palco, ele sabe que são as maiorzinhas que absorvem os floreios do texto. “Muitas vezes, a peça comunica para todas as idades mesmo. Mas eu acho que existem peças infantis diferentes. Dá para ser um infantil para crianças mais velhas ou um infantil mais para bebês”. Como não existe regra, cabe às produções indicarem a “recomendação” e aos pais encontrarem os melhores programas para seus filhos. Idade certa não tem, mas mais adequada, talvez. E se rolar birra, faz como Isaac disse: dá uma saidinha. Todos compreendem. Criança chora mesmo.