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(Foto: Divulgação)
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Sou cria da geração 70, costumo dizer que a Tropicália já me deu régua e compasso, e com esse traço, faço e desfaço o meu caminho. No meu atual espetáculo “Dzi Croquettes em Bandália”, estreado em 2012, em meio a uma enxurrada de musicais americanos que estavam dominando a praça, e predominantemente levando consigo todos os patrocinadores que injetavam milhões nesses grandes espetáculos, eu grito: “Artistas movam-se, estamos vivendo o fim da ideologia tropicalista; Bandália, Marginália, transvanguardemo-nos pois!” Voltemos nossa arte para cá, aqui mesmo. Somos nós os artistas do lado de cá de baixo do equador, que a arte contemporânea necessita para sobreviver, respirar.

Dentro desse contexto histórico, político e cultural, é que se encaixa a teatroplicalidade. A tropicália foi e continua sendo ainda hoje, uma revolução na cultura brasileira que aconteceu em vários fronts – a começar pelo design de Rogério Duarte – e que, depois evoluiu para as artes plásticas, música, fotografia, imprensa, literatura, cinema, moda e teatro. Entre seus militantes, esteve e está, José Celso Martinez, o genial Zé Celso do grupo Oficina, exímio combatente da nossa cultura teatral nacional.

Tendo como método a antropofagia cultural, elaborada pelo poeta e filósofo modernista brasileiro Oswald de Andrade, a Teatropicalidade irá assimilar e deglutir elementos da cultura internacional sim, porém incorporando-os – ou mesmo adaptando-os – ao contexto social, histórico, político e cultural do Brasil. A cultura nacional e a internacional, a baixa cultura e a alta cultura, erudito e popular, moderno e arcaico, Primeiro mundo e terceiro mundo, África e Europa, Brasil e América Latina. Tudo num caldeirão só, devorado e canibalizado, e depois escatologicamente cagado pela nossa super criativa carnavalidade. Devemos partir cada vez mais para a invenção do nosso teatro, que se encontra no seu sentido anárquico de apreensão do mundo, devorando todas as formas de cultura existentes, tornando a nossa obra a mais modernamente aberta possível, se intrometendo em tudo, utilizando não somente as coisas em si, mas as formas artísticas e subartísticas através das quais o nosso povo se expressa. Em relação à dramaturgia brasileira, então, sua grande lição é a coragem da criação, a falta de pudor, de medo do que é certo ou errado, do mau ou do bom gosto, que faz com que ele invente seus próprios valores na sua própria obra.

EVOÉ!

Ciro Barcelos é ator e diretor.