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(Foto: Sérgio Baia)
(Foto: Sérgio Baia)

Perguntaram se eu gostaria de escrever um texto sobre teatro para essa coluna online. Aceitei prontamente. Não gosto de perder nenhum desafio relacionado à minha profissão. Mesmo. Sou meio psicopata da profissão. As orientações eram simples e libertárias: escrever uma lauda sobre qualquer coisa que eu quisesse falar sobre teatro. Bom, tem muitas coisas que quero falar sobre teatro. Mas, de modo geral, prefiro ficar na moita e só costumo me posicionar plenamente através das engrenagens da ficção. Comecei, então, a fazer o exercício de encontrar um tema valioso para se dizer, e tudo que me veio à cabeça ficou parecendo autoajuda. Ando um censor bastante rigoroso de mim mesmo. Ainda pensei no Gregorio arrasando nas suas crônicas e fiquei mais constrangido de escrever algo que alguém eventualmente pudesse ler. Sentei no computador ao longo de dias espaçados e adiei toda ideia que me surgiu. Essa mesma, a de falar sobre não ter o que falar, já tinha me ocorrido e não gostei dela, claro. Fellini e todo mundo já fez isso. O problema é que faz muitas semanas que prometi entregar esse texto. Uma vergonha pra um artista sério. O deadline era o fim do carnaval e o editor do site deve no mínimo estar frustrado comigo ou já sem esperanças que eu vá produzir um texto bacaninha. É uma dívida. Mas, gente… É só um texto, não tem mistério. Não tem sentido fazer rodeio pra se tomar decisões criativas tão simples. Então, como tive muitas ideias nesse período seria só o caso de me agarrar a qualquer uma delas e seguir até o fim. É aí que então, tudo paralisa de novo e acredito que por ser um gênio seja melhor não escrever um troço qualquer. Acredito que não devo produzir algo que deponha contra meu talento raro. Portanto, não há dúvidas, é preciso escolher muito bem as palavras e talvez seja até preferível não escrever nada. Isso, é melhor não escrever nada. Porque teria que ter ironia, um pouco de doçura (é sempre legal e tem a ver comigo), e também provocar quem fosse ler. Melhor pedir desculpas e dizer que não consegui tempo pra escrever. (Pausa) Minha namorada insone entra na sala e lê esse esboço até esse ponto. Ela rapidamente me diz “Tem uns errinhos de português e uns tempos verbais estranhos (aqui, aqui e aqui)”. Depois faz uma pequena suspensão e conclui “Mas, o que que você tá querendo dizer?”. Aline vai dormir e fico sozinho de novo. Agora, são 5h41 da manhã, tô aqui com meu laptop e um copo d’água e acho que já consigo ir direto ao ponto comigo mesmo. Desculpa, Igor, você precisa celebrar a insignificância. Lembre de esquecer isso de ser especial. Não escreva nada fundamental pro mundo. Nada é fundamental pro mundo. Seja o velho e bom sincero. Isso já é coisa à beça. O que tá se passando aí dentro? Vai por esse caminho. O que tá se passando aí dentro? Inclusive esse já é o caminho desse texto trôpego. Só segue. O artista nunca está pronto. Shakespeare mentiu pra galera. Por que existe beleza em estar verde. Existe uma beleza danada em estar cru, verde, despreparado. Inclusive, sugiro que troque o título desse texto para: A festa da não genialidade; e o subtítulo: Ou toda arte que você vai deixar de fazer tentando. Chegando nesse ponto, talvez esse seja realmente um texto de autoajuda. Auto – ajuda. Pois, entrega ele assim, desse jeito. Essa é a sua honestidade. É o que temos pra hoje. Maravilha, encontrou teu prumo. Tomara que o editor te aceite.

Igor Angelkorte é ator, diretor e dramaturgo.