(Foto: Divulgação)
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Ator de musicais como “Emilinha e Marlene – As Rainhas do Rádio” e “Rádio Nacional – As Ondas Que Conquistaram o Brasil”, Thiago Pach tinha vontade de fazer algo próprio, autoral. Tal desejo se arrasou por anos, com alguns textos engavetados, e se concretiza em 2015. No mês que vem, Thiago estreia o espetáculo infanto-juvenil “Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória”, no Oi Futuro Flamengo, misturando teatro musical com Commedia Dell’arte. A ideia é dele – assim como a dramaturgia, as letras originais, a direção, a produção e a encenação, com mais sete atores.

– No Brasil, viver de arte é difícil e sempre acreditei no artista plural. Há três anos, transformei o “Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória” em musical. Resolvi colocar o sonho na rua e comecei a produzi-lo com ajuda da Alce Produções. Esse é um projeto antigo, de doze anos. Resolvi dirigi-lo pois ele está muito formatado na minha cabeça. Como também estou em cena como ator, chamei Adrén Alves para dividir a direção comigo. Trabalhamos muito bem juntos, então foi natural. – Thiago diz ao Teatro em Cena, ressaltando a importância de todos os profissionais envolvidos no projeto.

O espetáculo foi pré-concebido em 2003, quando o ator tinha só 19 anos e havia recém-trabalhado com a Commedia Dell’arte, gênero cômico italiano conhecido pela improvisação dos atores. Por isso, o flerte com esse segmento. As máscaras típicas, no entanto, não serão adotadas em “Todo Vagabundo…”. Thiago dispensou o acessório em cena, mas o levou para a sala de ensaios, quando houve um workshop com a professora Tárlia Laranjeira, especialista no tema.

– Os artistas de Commedia Dell’arte herdavam o ofício da família. Os filhos aprendiam com os pais. Eram gerações de atores comprometidos em passar o ofício adiante. Eram operários da arte. É interessante falar disso hoje que a arte e, consequentemente, o artista são tão desvalorizados.

No espetáculo, um mendigo, do dia para a noite, se vê na pele de um nobre. Ele é encontrado bêbado, maltrapilho e desmaiado na frente de uma cervejaria e levado para um palácio por um lorde, por pura diversão. O homem rico tenta convencê-lo de que ele esteve louco e desmemoriado, esquecendo-se que, na verdade, é um nobre poderoso. Inspirado no prólogo de “A Megera Domada” de William Shakespeare, o musical faz uma sátira aos valores da sociedade.

Logo provisório do musical e Thiago em ensaio (Fotos: Divulgação)
Logo provisório do musical e Thiago em ensaio (Fotos: Divulgação)

– “Todo Vagabundo…” fala sobre vários assuntos, entre eles o valor da ética, a descoberta do amor, a saudade, o preconceito e o papel da arte na formação do indivíduo. Dez anos depois de ter escrito o texto, descobri que gostaria de falar bem mais do que coloquei no papel, o que é natural. Vivemos um momento crítico no Brasil. O preconceito contra o que é diferente é algo que temos que lidar diariamente nas ruas, na televisão, em casa… O nosso musical fala sobre isso. O nosso protagonista é um homem simples e pobre. E alguém julga que ele não pode ser feliz com tão pouco, mesmo sem conhecê-lo.

Dividindo-se e multiplicando-se em tantas funções, Thiago Pach não esconde as dificuldades intrínsecas de levantar um musical autoral no Brasil. Músicas originais e história inédita não são exatamente o que pesam com o público e os patrocinadores. Ele sabe que, no país, o que está em alta são os musicais biográficos, com canções que os espectadores já saem de casa prontos para cantar.

– O público reconhece e canta junto. Isso já é um forte convite. Os fãs do artista homenageado são público garantido também. Não sou contra, pelo contrário, acho incrível, pois nossos artistas merecem ser lembrados. Porém montar um musical inédito, com músicas autorais, é mais difícil nesse sentido, pois o público não conhece as canções, não canta junto. Mas acho que tem espaço e público para todo mundo.