Não é para qualquer um. André Dias está na ficha técnica de dois espetáculos em cartaz no Rio de Janeiro simultaneamente. São dois musicais assinados por João Fonseca: “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz”, no Theatro Net Rio, e “Bilac Vê Estrelas”, no Teatro Sesc Ginástico. Este segundo recém-estreou e é a novidade do verão carioca, com o ator no papel principal, interpretando o poeta Olavo Bilac. A peça foi escrita e idealizada especialmente para tê-lo em cena. Se isso mexe com a cabeça dele? Não de uma maneira envaidecida. “Trabalho para ter prestígio e não para ser famoso. Eu não fico vaidoso. Eu fico muito feliz de ter chegado a um lugar no qual mirei há muitos anos atrás”, declara ao Teatro em Cena, na saída do teatro.

André Dias em "Bilac" (à esquerda) e em "Cazuza" (à direita): dois grandes personagens (Fotos: Leo Aversa / Reprodução Facebook)
André Dias em “Bilac” (à esquerda) e em “Cazuza” (à direita): dois grandes personagens (Fotos: Leo Aversa / Reprodução Facebook)

A entrevista acontece no fim da primeira sessão de “Bilac” e ele atende o editor do site na calçada, porque o teatro tem que fechar (ele ficou tempo demais recebendo os cumprimentos do público). Foram dois meses de ensaios de segunda a quinta no Rio, enquanto fazia a temporada de “Cazuza” em São Paulo de sexta a domingo. Muitos voos depois, é bom finalmente ter algo pronto para a plateia. “Estou muito feliz. É uma delícia fazer um espetáculo todo pensado para você”, ele diz. Como o musical tem curta duração – 1h40 – ele ainda sai cheio de energia. De “Cazuza”, confessa, sai esgotado, principalmente emocionalmente. Ainda mais quando se apresentava em São Paulo e ensaiava no Rio. “Se é mais cansativo fazer temporada ou ensaiar? Mais cansativo é fazer uma temporada e ensaiar ao mesmo tempo!”, ele ri. Dá para discordar?

Saiba mais sobre “Bilac Vê Estrelas” nesse texto opinativo

Caracterizado de Olavo Bilac (Foto: Leo Aversa / Divulgação)
Caracterizado de Olavo Bilac (Foto: Leo Aversa / Divulgação)

Para protagonizar “Bilac Vê Estrelas”, que é uma adaptação do livro homônimo do Ruy Castro, André Dias se afastou temporariamente de “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”. João Fonseca assumiu seu papel, o do produtor musical Ezequiel Neves, guardando-o até sua volta. A ideia é retomar o musical do cantor e compositor assim que a temporada de “Bilac” chegar ao fim, em 22 de fevereiro. “Isso é uma honra, porque é uma confiança muito grande que o João Fonseca tem em mim”. Esse já é o quarto trabalho dele com o diretor: também já fizeram “Era No Tempo do Rei” (que lhe rendeu um Prêmio APTR) e “Oui, Oui… A França É Aqui! – A Revista do Ano”. “É uma parceria incrível e sei que vai durar por muitos anos. O João trabalha com quem ele gosta, com quem admira, então ninguém se sente desvalorizado. Ele sempre se preocupa em dar pelo menos uma cena para cada um, se preocupa com o bem estar de todo mundo. Isso é muito gratificante para o ator”, elogia.

A presença de seu nome em duas fichas técnicas ao mesmo tempo chama a atenção, mas não é a primeira vez que André Dias trabalha dobrado. O ator também é diretor e assinou “Novelas, o Musical”, “Vingança” e “Nas Alturas” (versão brasileira de “In the Heights”) no ano passado, enquanto rodava o país com a turnê do “Cazuza”. Com 40 anos de idade, está na carreira desde os 16 e, como ele mesmo diz, “nunca parou”. André trabalhou com Charles Möeller e Claudio Botelho (em “Avenida Q”), Tadeu Aguiar (em “Quase Normal”), Gabriel Villela (em “Ópera do Malandro” e “Gota d’Água”) e Diogo Vilela (em “Elis – A Estrela do Brasil”), entre tantos outros. Um traço marcante em sua trajetória é sua capacidade de mudar fisicamente para cada papel. “Meus amigos me chamam de camaleão”.

Camaleão

Com Emílio Dantas, em "Cazuza - Pro Dia Nascer Feliz, o Musical" (Foto: Divulgação)
Com Emílio Dantas, em “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical” (Foto: Divulgação)

Ver o André em “Cazuza”, como Ezequiel, e vê-lo em “Bilac”, como Olavo Bilac, é a comprovação disso. Não dá para reconhecer um no outro. Até o bigode, que os dois personagens têm, ganha novas características dependendo do que solicita o papel. “Tirei a barba do Ezequiel para o Olavo e vou fazer os dois com esse bigode. É um bigode para dois contratos”, ele brinca. “Arrumo para baixo e é anos 80, Ezequiel, e para cima é início do século, Olavo Bilac”. Parece simples, mas não é só isso. André realmente dá valor para a caracterização de cada personagem. Para seu novo trabalho, ele maneirou na academia para ter o físico magricelo do poeta e buscou referências no cinema mudo, principalmente em Buster Keaton. “Eu queria uma composição mais fixada no olhar. O Bilac tem uma dicotomia muito grande: ao mesmo tempo em que o artista gostava de ser adulado e tinha um ego muito grande, a pessoa era tímida e retraída, por causa da vesguice e por ser franzino”, conta. “Eu gosto dessa versatilidade e sempre foquei em nunca fazer trabalhos iguais. Gosto muito de me caracterizar. Os maquiadores, figurinistas e peruqueiros são artesãos junto com a gente. A peruca e a maquiagem entram, e você não se reconhece no espelho. Isso ajuda muito no trabalho de composição”.

Quando interpretou o espírito Emanuel no filme “Chico Xavier” (é bom ressaltar: ele não é ator exclusivo de musicais), visto por mais de três milhões de espectadores, André Dias tinha que ficar duas horas fazendo cabelo e maquiagem. “Eu começava a filmar às 9h30 e tinha que chegar ao set às 7h da manhã. Era um cabelo muito difícil e uma maquiagem muito delicada em HD”. Mas nada de cara feia. Ele gostava do processo. “Isso me dá muito prazer. É muito rico para o artista”. Nesse trabalho, foi dirigido por Daniel Filho e foi parar na tela da TV Globo, quando o longa-metragem foi dividido e transformado em microssérie. Se ele deseja fazer mais cinema e televisão para ficar famoso?

(Foto: Reprodução / Caio Gallucci)
(Foto: Reprodução / Caio Gallucci)

André Dias gosta das diversas experiências como ator, mas se considera um ator de teatro. A fama, ele garante, não é uma meta. Sua realização é outra. “Eu tenho prestígio com o João [Fonseca], o Ruy Castro, as produtoras, os meus colegas. Eu faço isso para crescer junto com eles, e não para ficar famoso e ter vaidade. Se um dia a fama chegar, ótimo. Se ela não chegar, eu me considero um ator de sucesso”.

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BILAC VÊ ESTRELAS: sex a dom, 19h. Apresentações extras às 16h: 24/1, 31/1, 7/2 e 21/2. R$ 20 (ou R$ 5 para associados Sesc). 100 min. Classificação: 12 anos. Até 22 de fevereiro (com recesso no Carnaval). Sesc Ginástico – Avenida Graça Aranha, 187 – Centro. Tel: 2279-4027.

CAZUZA – PRO DIA NASCER FELIZ, O MUSICAL: qui e sex, 21h; sáb, 21h30; dom, 20h. R$50 a R$ 150. 150 min. Classificação: 14 anos. Até 8 de março. Theatro Net Rio – Rua Siqueira Campos, 143, 2º piso – Copacabana. Tel: 2147-8060.