Trágica.3 propõe experiência alternativa para clássicos gregos

A peça teatral “Trágica.3” propõe uma nova experiência cênica a partir da dramaturgia grega clássica. Concebido e dirigido por Guilherme Leme (de “RockAntygona”), o espetáculo trabalha com as tragédias de Antígona, Medeia e Electra, estabelecendo um diálogo com as artes plásticas, as performáticas e a música contemporânea. Como experiência cênica, missão cumprida. Ninguém falou que tinha que ser uma experiência prazerosa.

Letícia Sabatella interpreta Antígona com performance contemporânea (Foto: Victor Hugo Cecatto)

Letícia Sabatella interpreta Antígona com performance contemporânea (Foto: Victor Hugo Cecatto)

Não é um espetáculo exatamente fácil, e não mira nisso. A encenação é dividida em três partes – uma para cada releitura, a partir de textos de Caio de Andrade, Francisco Carlos e Heiner Müller. Em cada bloco, uma atriz monologa, com uma ou outra inserção de Fernando Alves Pinto (de “Modéstia”) e Marcello H (de “RockAntygona”), que estão no palco basicamente para tocar os instrumentos musicais. Nisso, as tragédias gregas perdem muito. Não foram escritas como monólogos – nem para serem transformadas em tais.

Letícia Sabatella (da novela “Sangue Bom”) é a primeira a entrar em cena, como Antígona. Sua parte inclui lamentos musicais excessivamente extensos que, com a meia luz de Tomás Ribas, convidam a distrações e ao sono. A atriz está ótima dentro da proposta, mas a proposta é bizarra de uma maneira pouco atraente. Em seguida, Miwa Yanagizawa (de “Nada”) dá vida à Electra, e o espetáculo ganha alguma força. Sua interpretação é muito visceral – e a ausência do cântico contemporâneo colabora. Nesta parte, a iluminação é mais quente e dá uma acordada. Depois, Denise Del Vecchio (de “A Bala na Agulha”) finaliza com Medeia – outra atuação elogiável. Nesta parte, o telão cênico, que até então só exibia cores, passa um vídeo de duas crianças na praia e, de alguma maneira, é uma surpresa boa.

Miwa Yanagizawa interpreta Electra (Foto: Victor Hugo Cecatto)

Miwa Yanagizawa interpreta Electra (Foto: Victor Hugo Cecatto)

No mais, “Trágica.3” parece uma viagem do diretor, na qual os atores embarcaram, e a crítica também (a peça está indicada a prêmios em São Paulo). Mas é pouco convidativa para o público em geral, embora o programa fale em “formação de plateia”. É como se Guilherme Leme tivesse misturado tudo que lhe interessa particularmente, sem se importar com a comunicação com os espectadores. Há uma barreira clara entre emissor e receptor.

A peça fica em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro, até 14 de setembro, com ingressos a R$ 10. As sessões ocorrem nas sextas às 19h, e nos sábados e domingos às 17h e 19h. A classificação etária é de 14 anos.

Denise Del Vecchio é Medeia (Foto: Victor Hugo Cecatto)

Denise Del Vecchio é Medeia (Foto: Victor Hugo Cecatto)

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.