Umberto Magnani e Suely Franco esbanjam química em Elza e Fred

Vários problemas podem acontecer quando uma obra é adaptada para uma plataforma diferente. Do livro para a TV, da TV para o cinema, do cinema para o teatro, não importa, os riscos são grandes. Há uma aposta no retorno comercial – pela certeza do título conhecido – mas também existe uma grande chance de decepcionar o público. “Elza e Fred – O Amor Não Tem Idade”, espetáculo protagonizado por Suely Franco (de “As Mulheres de Grey Gardens”) e Umberto Magnani (da novela “Balacobaco”), é um caso à parte. Muito específico. Trata-se de um filme argentino (de 2005), adaptado para o teatro no México (em 2010), e traduzido para o português em uma montagem brasileira neste ano. Não se apoia no título famoso, porque o filme não foi nenhum blockbuster por aqui.

elza e fred

(Foto: Divulgação)

Piadas próprias do idioma e do humor argentino se perdem no palco do Teatro das Artes, no Shopping da Gávea. Há momentos claros que deveriam ser engraçados e não são. Não chegam a comprometer (porque a maioria das cenas faz rir sim), mas chamam a atenção na primeira parte da comédia romântica (que tem um prelúdio cantado bizarro, facilmente cortável). Depois, o público é contagiado por Suely Franco – que, é possível dizer, está um tom acima do necessário, mas ainda assim bem, e hilária como Elza. É sua comicidade o ponto alto da peça.

Na trama, o viúvo introspectivo Fred se muda para um apartamento novo e logo conhece Elza, a vizinha animada e com mania de mentir. Os dois se aproximam depois que ela bate no carro da filha dele, foge do acidente, é descoberta e obrigada a pagar pelo reparo. É o suficiente para que Elza comece a investir nele, com uma paquera graciosa. Fred é interpretado por Umberto Magnani, impecável no papel. É o melhor do elenco, de longe, com uma interpretação que “dá gosto de ver”. Além disso, é ótima sua química com Suely Franco.

O texto é razoável – engraçado, mas arrastado em alguns momentos, o que pode ser reflexo da adaptação feita. Há personagens excessivos (um neto, dois médicos, um genro), que sobram no teatro, ainda mais com algumas atuações sofríveis. Mayara Magri (de “As Pontes de Madison”) está especialmente artificial como a filha de Fred, com problemas de respiração e de pontuação nas falas, como engasgos a cada entrada. Há uma falha clara de direção (de Elias Andreato, de “Meu Deus!”), que deixa passar o impassável, e parece que o espetáculo ainda tem muito o que amadurecer.

Suely Franco, Umberto Magnani e Mayara Magri (Foto: Guga Melgar)

Suely Franco, Umberto Magnani e Mayara Magri (Foto: Guga Melgar)

Os cenários de Fábio Namatame (que também assina os figurinos) são eficientes, e originais, sem a pretensão de imitar a estrutura da montagem mexicana, que é quase como um estúdio de filmagem. O espaço é utilizado de maneira inteligente, com paredes móveis, que proporcionam dinamismo.

A temporada vai até 28 de setembro, com sessões de quinta a sábado às 21h e domingo às 19h. Os ingressos custam R$ 60 na quinta e R$ 80 nos demais dias. A classificação indicativa é de 12 anos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.