Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum sensibiliza plateia

Quem não conhece o texto de “Nossa Vida Em Família” (ou simplesmente “Em Família”), do Oduvaldo Vianna Filho, logo entende a decisão de remontá-lo quatro décadas depois. Parte de uma série de montagens planejadas com o objetivo de reativar a Sociedade Brasileira de Autores (SBAT) como centro difusor da dramaturgia brasileira, o espetáculo ganhou um título novo – “Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum” – e se mantém atualíssimo, graças ao texto, que é o seu maior trunfo. A história poderia ter sido escrita hoje, ou amanhã também.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

A trama trata de um drama cada vez mais comum nas famílias contemporâneas: o destino dos vovôs e vovós. Na história, um casal de idosos reúne os quatro filhos para dizer que não tem mais condições de arcar com o aluguel do lugar onde vive, e que terá que deixar a residência em três dias. A partir daí, os filhos têm a responsabilidade de cuidar dos pais, cada um com seus próprios empecilhos: falta de dinheiro, apartamento pequeno, marido/esposa resistentes, falta de hábito… e de planejamento. É triste, mas fica claro que os idosos se tornam um estorvo por onde passam, sem que ninguém saiba o que fazer com eles. Marido e mulher são separados e vão morar cada um com um filho – e é difícil não se sensibilizar com a situação.

Luisa Arraes substitui Bella Camero em peça de Oduvaldo Vianna Filho

A direção é de Aderbal Freire-Filho, que vem do intenso e premiado “Incêndios”. Em “Vianninha”, novamente, o público sai do teatro abalado, mas de uma maneira diferente. Não é paralisante, como o texto de Wajdi Mouawad. É mais reflexivo. De alguma maneira, todos sabem que vão passar por algo semelhante algum dia. O trabalho do Aderbal, ressalta-se, é certeiro, e não deixa sentir a 1h50 de encenação. Os atores ficam no palco em tempo integral, como se assistindo também à própria história que contam. É um paralelo interessante à condição dos personagens, todos impotentes de achar uma solução satisfatória para o drama dos velhinhos – bem interpretado por Cândido Damm (de “Deixa Que Eu Te Ame”) e Vera Novello (de “Sambinha”). Também chamam a atenção o trabalho dos atores Isio Ghelman (de “Deixa Que Eu Te Ame”) e Anna Velloso (de “Sambinha”), na pele dos filhos que recebem os pais em casa, e Gillray Coutinho (de “Linda”), amigo do patriarca.

Anna Velloso, Cândido Damm e Gillay Coutinho em cena (Foto: Divulgação)

Anna Velloso, Cândido Damm e Gillay Coutinho em cena (Foto: Divulgação)

Os adereços cênicos – obra de Fernando Mello da Costa – são eficazes, marcando claramente as mudanças de ambiente. É tudo gasto, usado, como os protagonistas, e os figurinos (de Ney Madeira e Dani Vidal) apostam em tons acinzentados, neutros, o que cai bem.

A temporada vai até 31 de agosto no Teatro Poeira, em Botafogo, com sessões de quinta a sábado às 21h, e domingo às 19h. Os ingressos custam R$ 50, e a classificação é de 14 anos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.