Mesmo Claudio Botelho já tendo divulgado uma carta aberta se retratando, o episódio de “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” em Belo Horizonte continua a repercutir. A cantora e compositora Zélia Duncan fez menção ao incidente em sua coluna no jornal O Globo, publicada nesta sexta (25/3): “Um ator, que se acha ‘rei’, resolve usar seu ‘trono’ como se estivesse num vaso, como diria minha avó. Acontece que de dejetos, nossos dias andam cheios e a plateia reagiu imediatamente”. Para quem perdeu parte da história: Claudio usou a peça com canções Chico para se posicionar a favor do impeachment, o que gerou revolta em parte do público e se tornou escândalo de militância nacional, provocando o cancelamento das sessões. Chico acabou retirando a concessão de direitos de suas músicas, também.

(Foto: Divulgação)
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No texto, Zélia condena Claudio Botelho por egocentrismo surdo e cego, e critica a oratória dele sobre a relação do artista com o palco e o público. “O misticismo que envolve o palco é usado de acordo com a conveniência, mas ele mora justamente na entrega, no talento, no que está ali previamente. Antes da vaidade, da arrogância e da ambição. Quem é, não se proclama ser. Não precisa. O artista que se coloca acima da arte que supostamente está realizando perde muito com isso, a meu ver”, escreve a cantora, referindo-se ao áudio gravado do Claudio com a colega de elenco Soraya Ravenle no camarim. Na gravação, feita e divulgada sem conhecimento de ambos, o diretor musical diz: “O ator que está em cena é um rei, não pode ser peitado por um negro, por um filho da **** que está na plateia. Não pode, não pode ser peitado!”. Em outro trecho, discutindo com a atriz, dispara: “essa peça é minha, sou produtor, sou o dono, sou o responsável, quem vai perder o dinheiro sou eu! [Se não concorda] É só uma questão de sair [do elenco]”.

(Foto: Reprodução)
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Tal comportamento – captado em um momento privado de extremo nervosismo – é analisado por Zélia em sua coluna. Segundo ela, o grande segredo do artista é não se deixar enganar pelo sucesso, porque a arte, sim, que é “a real rainha”. “Existe sim o glamour, o incenso, a idealização, a paparicação, tiramos nossas casquinhas, mas o segredo óbvio é não acreditar. Esses lugares de confete são rodízios de momentos superficiais”, opina. “O discurso surtado, que podemos ouvir na rede, proferido depois no camarim, foi gravado maldosamente por alguém próximo e dá até um mal-estar na alma. Esse ódio desmedido e improdutivo, que experimentamos hoje em dia, que não é bom nem pra direita, nem pra esquerda, não ajuda o presente, não contribui pro futuro, é só um exercício burro, de poder agressivo. Não gira, não roda, paralisa o fluxo do pensar. A certeza de que a plateia se renderia unânime mostra o autoritarismo de sua atitude e a falta de compromisso com seus colegas de palco”.

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A cantora também usou a coluna para esclarecer a comparação que Claudio fez da interrupção de sua peça com “Roda Viva”, invadida pelos militares durante a ditadura. Inicialmente, o diretor disse que os espectadores que gritaram “não vai ter golpe” e fizeram a sessão parar eram equiparáveis. Depois, ele mesmo retirou essa declaração, admitindo um erro de interpretação dos fatos. “Tantos anos debruçado sobre a obra de Chico, mas não entendeu ainda o recado”, escreveu Zélia. “é como se alguém cantasse a obra de Caymmi e tivesse ódio da Bahia. É o retrato desse momento de pólvora e falsos palanques. Quem sabe defender pensamentos não precisa sair vociferando, babando verde e botando o dedo na cara de quem escolhe outra direção para olhar. E ser artista não significa necessariamente ser transgressor e arrojado, mas o momento é de sermos melhores e mais respeitosos cidadãos. Afinal, nem todos têm muita graça…”.